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terça-feira, 17 de maio de 2016

José Reis Chaves - Diabo, satanás, lúcifer, serpente e dragão não são demônios

José Reis Chaves

Nem espíritos são, mas apenas símbolos do mal
Publicado no Jornal O TEMPO em 20/06/2011


 

Diabo, satanás, lúcifer, serpente e dragão não são demônios

A divisão do cristianismo em milhares de igrejas deve-se à instituição de doutrinas polêmicas dogmáticas pelos teólogos. A sua primeira grande divisão ocorreu em 1054, quando o arcebispo de Constantinopla Cerulário fundou a Igreja Católica Ortodoxa Oriental.

E, em fins do século XVI, foi a vez da Reforma Protestante de Lutero, que rachou de vez o cristianismo, mas contribuiu muito para com o enfraquecimento da Inquisição. E, com o surgimento do protestantismo, a Igreja realizou o Concílio Ecumênico de Trento (1545 a 1563), que corrigiu alguns de seus erros.

Na segunda metade do século XIX, Kardec, "o bom senso encarnado", tornou-se o mais importante reformador do cristianismo, pois ele ensinou, de acordo com a orientação de espíritos santos, o estudo racional da Bíblia, sem os erros e abusos das interpretações literais e metafóricas, pelo que o espiritismo é considerado o Consolador prometido por Jesus.

E, hoje, a Igreja tem também as suas divisões: os fundamentalistas adeptos da TFP e os carismáticos. Geralmente, essas duas correntes travam as ideias inovadoras da Igreja. Por isso são frequentes os seus conflitos com os padres e até com bispos. E, hoje, os carismáticos estão descobrindo a mediunidade, pois é inevitável que haja entre eles médiuns especiais, ou seja, os que imantam (incorporam) espíritos. E muitos deles estão procurando as casas espíritas para se esclarecerem sobre os fenômenos mediúnicos (espirituais no dizer de são Paulo) que ocorrem com eles em suas reuniões, pois o dom da mediunidade não escolhe religiões. Nas palestras que faço pelo Brasil afora, tenho observado essa frequência de carismáticos nas casas espíritas. E carismático ("carismata", em grego) significa também médium.

Os espíritos manifestantes, como nos mostram Paulo (1 Coríntios, capítulos 12, 13 e 14; e 1 João, 4:1), a Vulgata Latina e o espiritismo, podem já ser santos (evoluídos) ou ainda maus (atrasados), mas todos são humanos e não de outra categoria de espíritos. Diabo, satanás, dragão etc não são espíritos, mas símbolos, e menos ainda Deus, que uns chamam de Espírito Santo. Não sigamos os erros dos teólogos do passado. Recomendo, pois, aos estudiosos da Bíblia o exame dos seus textos livres dos dogmas, os originais gregos do Novo Testamento e a Vulgata Latina, para se certificarem dessas verdades e as poderem difundir, colaborando, assim, para com a correção de um dos grandes erros do cristianismo, que, inclusive, incrementa o crescimento do materialismo. A maioria dos autores de livros a respeito do Apocalipse afirma que, quando João o escreveu (em 95), o povo acreditava que Nero havia voltado à vida em Domiciano. Mas não se trata da reencarnação do espírito de Nero em Domiciano, pois esses dois imperadores romanos eram contemporâneos. O que aconteceu é que o espírito de Nero obsediava Domiciano (o encosto popular). Nero, a primeira besta, morreu, mas voltou à vida em Domiciano (Apocalipse 13: 3 e 14).

E atentemos para o fato de que é do próprio são João esse princípio espírita de obsessão ou possessão de Domiciano pelo espírito humano (demônio) de Nero, e não pelo diabo, satanás, lúcifer, a serpente ou o dragão, que, como vimos, nem espíritos eles são, mas apenas símbolos do mal!

PS: Fórum Nacional de Mediunidade e Paranormalidade, da Associação Educacional Terceiro Milênio, em Florianópolis (SC), sob coordenação do médico e escritor Ricardo Di Bernardi, em 1º de outubro de 2011. Contato: www.3milenio.org


Obs.: Esta coluna, de José Reis Chavez, às segundas-feiras, no diário de Belo Horizonte, O TEMPO, pode ser lida também no site http://www.otempo.com.br/. Ela está liberada para publicações. José Reis Chavez é autor dos livros “A Face Oculta das Religiões”, “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência” Ed. EBM (SP) e “A Bíblia e o Espiritismo”, Ed. Espaço Literarium, Belo Horizonte (MG) – http://www.literarium.com.br/. e-mail: jreischaves@gmail.com

Os livros de José Reis Chaves podem ser adquiridos também pelo e-mail: contato@editorachicoxavier.com.br e o telefone: 0800-283-7147.

Uma Bibliografia dos Diabos



Este blogue aborda as questões do céu e do inferno, dos anjos e dos demónios, muito pela rama. A quem queira saber mais, aconselhamos a obra «Visão Espírita da Bíblia», de José Herculano Pires, disponível para download, bem como estas obras:

ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa, Edições 70, 1979.

CAMPBELL, Joseph. A transformação do mito através do tempo. São Paulo, Cultrix, 1995.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente (1300-1800): uma cidade sitiada. São Paulo, Cia. das Letras, 1989.

DURANT, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução a arquitipologia geral. Lisboa, Estampa, 1989.

FONSECA, Luís A. “Prefácio”. In: NOGUEIRA, Carlos R. F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, Edusc, 2000.

HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo, Ed. Loyola, 1992.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo, Martins Fontes, 1995.

JAMESON, Frederic. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo, Ática, 1997.

LINK, Luther. O diabo: a máscara sem rosto. São Paulo, Cia das Letras, 1998.

MESSADIÉ, Gerald. História geral do Diabo: da Antiguidade à Idade contemporânea. Mira-Sintra, Publicações Europa-América, 2001.

MINOIS, Georges. O Diabo: origem e evolução histórica. Lisboa, Terramar, 2003.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo. Rio de Janeiro, Forense, 1969.

MUCHEMBLED, Robert. Uma história do Diabo: séculos XII-XX. Rio de Janeiro, Bom Texto, 2001.

NÉRET, Gilles. Devils. Köln, Taschen, 2003. (Icons).

NOGUEIRA, Carlos R. F. O diabo no imaginário cristão. Bauru, Edusc, 2000.

PRAZ, Mario. A carne, a morte e o diabo na literatura romântica. Campinas Editora da Unicamp, 1996.

RUSSELL, Jeffrey B. Mephistopheles: The devil in the Modern World. Ithaca/ London, Cornell

UP, 1990. Lúcifer: o diabo na Idade Média. São Paulo, Madras, 2003.

STANDFORD, Peter. O Diabo: uma biografia. Rio de Janeiro, Gryphus, 2003.

Nota: desaconselhável a pessoas de um livro só.

Um documentário dos diabos...

 

O popular site youtube, através do canal documentarioz, divulga um documentário muito interessante, intitulado "A História de Satanás", no qual historiadores, antropólogos e outros especialistas traçam a evolução do mito popular do "diabo". A par com muito "lixo" que pulula pelo youtube, esta é uma peça com valor:

 

O texto introdutório do documentário, e o próprio documentário, estão em consonância com o que temos escrito na secção "Anjos e Demónios", deste blog:

«Satanás ou Satã (do hebraico שָטָן, adversário/acusador, no koiné Σατανάς Satanás; no aramaico צטנא, em árabe شيطان) é um termo originário da tradição judaico-cristã e geralmente aplicado à encarnação do Mal em religiões ditas monoteístas.

Origem e etimologia:

A palavra שָטָן (significando adversário, acusador) assim como o árabe الشيطان (shaitan), derivam da raiz semítica šṭn, significando ser hostil, acusar.. O Tanakh utiliza a palavra שָטָן para se referir a adversários ou opositores no sentido geral assim como opositores espirituais. Já o Novo Testamento utiliza o termo como um nome próprio que designa uma entidade sobrenatural que teria se rebelado contra Deus e que agiria contra este (baseados em um texto obscuro de Ezequiel, Capítulo 28, Versículos 12 ao 19 ). O termo grego Σατανάς aparece na Septuaginta e no Novo Testamento.

Igreja Católica:

Segundo a igreja católica, Lúcifer era o mais forte e o mais belo de todos os Querubins. Então, Deus lhe deu uma posição de destaque entre todos os seus auxiliares. Segundo a mesma, ele se tornou orgulhoso de seu poder, que não aceitava servir a uma criação de Deus,"O Homem",e revoltou-se contra o Altíssimo. O Arcanjo Miguel liderou as hostes de Deus na luta contra Lúcifer e suas legiões de anjos corrompidos; já os anjos leais a Deus o derrotaram e o expulsaram do céu, juntamente com seus seguidores. Desde então, o mundo vive esta guerra eterna entre Deus e o Diabo; de seu lado Lúcifer e suas legiões tentam corromper a mais magnífica das criaturas mortais feitas por Deus, o homem; do outro lado Deus, os anjos, arcanjos, querubins e Santos travam batalhas diárias contra as forças do Mal (personificado em Lúcifer). Que maior vitória obteria o Anticristo frente a Deus do que corromper e condenar as almas dos humanos aos infernos, sua morada verdadeira?

A aparência de Lúcifer pode variar; acredita-se que ele (chamado agora de Diabo), pode assumir a forma que desejar, podendo passar-se por qualquer pessoa. Seu aspecto físico criado pela Igreja em seus primeiros séculos (e posteriormente herdado pelas várias religiões cristãs) fora copiado de várias entidades das mitologias e religiões de diferentes povos antigos (não exatamente ligadas a maldade); Seu reino, os Infernos, sofreu influência do Tártaro da mitologia grega, morada de Hades, local para onde iam as almas dos mortos, cuja porta de entrada era guardada por Cérbero, o Cão de três cabeças; seus chifres eram de Pam , uma entidade grega protetora da natureza; sua fama de representar uma força eternamente em conflito com Deus veio do Zoroastrismo. Ainda encontramos coincidências com as crenças dos antigos Egipcios, quando se acreditava que o Deus Anubis (o Chacal) carregaria a alma dos mortos cujo coração ao ser pesado numa balança, seria mais pesado que uma pluma.

Durante a " baixa Idade Média",entretanto, que o "Anjo Decaído" ganhou a hedionda aparência com a qual o conhecemos hoje; asas de morcego, pés de bode, olhos de fogo, chifres enormes na cabeça, olhar aterrorizante, etc. A idade das trevas fora um momento fértil para a propagação nas crenças nas ações de forças demoníacas agindo sobre o mundo. Os milhões de mortos nas epidemias de peste negra vieram, juntamente com a ocorrência de guerras sangrentas, de que "o Anticristo estaria atuando no mundo". Foi aí que Lúcifer passou a representar a personificação do mal da forma mais intensa e poderosa que conhecemos hoje. Surge a crença de que para cada ser humano vivo na Terra, Lúcifer criou um Demônio particular, encarregado de corromper aquele indivíduo; já Deus, não poderia deixar por menos, e criou para cada ser humano um "Anjo da Guarda" ao qual incumbia da missão de proteger e zelar pela alma daquela pessoa.

Interessante observar que o próprio Jesus Cristo é a estrela da manhã que ilumina até o fim dos tempos toda escuridão (trevas), como em Apocalipse 22:16 onde está escrito: "Eu, Jesus, enviei o meu anjo. Ele atestou para vocês todas essas coisas a respeito das Igrejas. Eu sou a raiz e o descendente de Davi, sou a estrela radiosa da manhã.". Assim como em II Pedro 1,19 que diz: "E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumina em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela D'alva apareça em vossos corações.".

A palavra Lúcifer significa "o portador da luz" ou "o portador do archote" (a palavra tem sua origem no latim, lux ou lucis com o significado de "luz"; ferre com o significado de "carregar"). Ou seja, de acordo com a origem, seu significado é "aquele que carrega a luz". Apesar de Satanás ser originalmente conhecido como Lúcifer, perdeu seu posto ao desejar subir a alturas acima de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo.»

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Expulsar "Demónios"

 
Se no Antigo Testamento não encontramos referências ao(s) Diabo(s), já o Novo Testamento acha-se pleno de referências passíveis de serem interpretadas dessa forma.

Um exemplo bastante conhecido é do acto de expulsar demónios. Note-se o plural. Os demónios, para a generalidade das religiões, serão "anjos caídos". A narrativa que serve habitualmente de base à doutrina dos anjos caídos é o famoso Apocalipse de João, um texto particularmente hermético, intrincado e simbólico. O Diabo é visto, consoante as conveniências, como a serpente de Adão e Eva; como Azazel, o executor das vontades Javé; como o Leviatã, um monstro marinho; e agora no plural, os demónios expulsos por Jesus.

São fontes diversas e nada claras para uma doutrina controversa. Os anjos, segundo as religiões, foram criados perfeitos e puros. Como conceber que tais seres possam ter vindo a converter-se em tentadores da Humanidade? Como aceitar que se tenham tornado maus, façam os outros sofrer e não sofram, eles mesmos? E como aceitar que Deus, a Soberana Justiça, tenha criado seres privilegiados como os anjos?

Os demónios que Jesus expulsava, no entender do Espiritismo correspondem aos daimon de Sócrates. Daimon em Grego significa Espírito. Os Espíritos são apenas seres como nós, temporariamente sem um corpo material. Os bons Espíritos, quando se manifestam junto dos homens, são vistos como anjos, e os maus como demónios. A palavra demónio, derivada do daimon Grego, passou a ter a conotação negativa que se conhece, designando os maus Espíritos, os Espíritos inferiores, atrasados, perversos.
 
No entanto, para o Espiritismo, todos os Espíritos evoluirão, mais tarde ou mais cedo. O Bom Pastor não quer que nenhuma ovelha se perca.

Cabe aqui perguntar: como expulsava Jesus os maus Espíritos?

Pelo ascendente moral. Não há nada de material que tenha efeito no mundo espiritual. Nem água benta, nem palavras sacramentais, nem sinais, nem símbolos, nem defumadouros, nem ralhetes, nem ameaças, absolutamente nada a não ser o ascendente moral. Eis porque os maus Espíritos se retiravam às ordens de Jesus. 
 
Há exorcismos que resultam, há mezinhas que resultam. Ou pelo medo que infundem em Espíritos ignorantes, ou pelo ascendente moral de quem intercede em favor da pessoa que se acha sob influência dos maus Espíritos. 
 
 
 

Jesus e o Reino dos Céus

 

Jesus respondeu-lhes: O reino de Deus não tem aparência. Ninguém dirá: "Ei-lo aqui", ou "ei-lo ali" porque o Reino de Deus está dentro de vós.

Lucas, 17;21

Assim como não definiu um Reino dos Céus materialmente, de forma circunscrita, como um "lugar", Jesus também não o fez relativamente ao Inferno, ou ao Purgatório, aos quais nem se referiu, de todo.

O Reino dos Céus aparece-nos como um estado de bem-aventurança. Quanto às imagens habitualmente apontadas no Novo Testamento como lugares de perdição ("lago de fogo e enxofre", "lugar de choro e ranger de dentes", etc.), será credível que alguém possa ser eternamente feliz no 
Reino dos Céus sabendo que familiares e amigos sofrem no Inferno eternamente???

Mais: será credível que Deus, infinitamente Justo e Bom, permita tal aberração? Jesus alertou para as más consequências dos maus actos, mas foram os homens que elevaram esse aviso ao requinte de sadismo que habitualmente constitui o Inferno na visão das religiões cristãs!



"Stn" e "Diabolos"


Atentemos nesta passagem do Segundo Livro de Samuel, do Antigo Testamento:

14
Então disse David a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu.
15
Então enviou o SENHOR a peste a Israel, desde a manhã até ao tempo determinado; e desde Dã até Berseba, morreram setenta mil homens do povo.
16
Estendendo, pois, o anjo a sua mão sobre Jerusalém, para a destruir, o SENHOR se arrependeu daquele mal; e disse ao anjo que fazia a destruição entre o povo: Basta, agora retira a tua mão. E o anjo do SENHOR estava junto à eira de Araúna, o jebuseu.
17
E, vendo Davi ao anjo que feria o povo, falou ao SENHOR, dizendo: Eis que eu sou o que pequei, e eu que iniquamente procedi; porém estas ovelhas que fizeram? Seja, pois, a tua mão contra mim, e contra a casa de meu pai.

É uma das muitas, no Antigo Testamento, em que a Javé, o Deus Único, são atribuídas acções como a de exterminar pessoas, tendo inclusivamente tentado assassinar o próprio Moisés... E de se arrepender. Contudo, à semelhança dos deuses das mitologias Antigas, Javé prefere frequentemente delegar em outros essas tarefas:

"(...)e disse ao anjo que fazia a destruição entre o povo: Basta, agora retira a tua mão."

Neste episódio, como em tantos outros, como por exemplo o da mula de Balaão, que é mandada estancar, ou no das mil e uma desgraças que acontecem a Job, o executor é um opositor, alguém que coloca obstáculos.

Esse anjo encarregado de dificultar toma os nomes de stn (satã), em Hebraico e de diabolos (diabo) em Grego. O significado é "opositor", ou "inimigo" ou "aquele que coloca obstáculos".

Não somos nós que o afirmamos. São estudiosos tão insuspeitos como George Minois, autor de um tratado completíssimo intitulado O Diabo, Origem e Evolução Histórica, cuja leitura vivamente recomendamos.

Não há, pois, referências ao Diabo, ou Satanás, no Antigo Testamento. Há, sim, "anjos" (mensageiros) encarregados de colocar obstáculos.
 

Na imagem: uma representação do famoso episódio da mula de Balaão.
 
 

O Mal Segundo Sócrates e Platão



Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", o filósofo grego Sócrates é considerado por Allan Kardec como um percursor do Espiritismo.
 
Sócrates nasceu em 470 a.C., em Atenas, e é provavelmente o mais conceituado de todos os filósofos, não só pelo brilho das suas ideias, como pela humildade e coerência. que sempre demonstrou. Acreditava na virtude, na cooperação, e no desenvolvimento interior como forma de vida, por oposição à busca da riqueza material.

Pensa-se que tenha sido oleiro. O que parece certo é que não recebia pagamento pelas suas aulas de filosofia, tendo sido toda a vida pobre, apesar da sua enorme fama e valor.

Condenado à morte pelas suas ideias "subversivas", aceitou a sentença sem fugir de Atenas, quando teve oportunidade de o fazer. Explicou que essa atitude seria desertar da Filosofia, e se não tinha desertado na vida militar, não o iria fazer no campo das ideias que acalentava.

Entre as ideias "subversivas" de Sócrates, que tanto escandalizaram as autoridades, estava a crença em muitos dos pilares da doutrina espírita.

Não pretendem estas nossas pequenas croniquetas ser mais que um modesto aperitivo para a leitura das obras de Allan Kardec, e, como tal, convidamos os nossos leitores a fazerem o download de O Evangelho Segundo o Espiritismo e espreitarem, no Capítulo I, Introdução, o resumo da doutrina de Sócrates e de Platão, seu discípulo. Mergulhados num mundo pagão e politeísta, estes brilhantes pensadores pressentiram a ideia espírita. E daí terem pago um preço elevado. Sócrates pagou com a vida.

No que diz respeito ao assunto que estamos a focar nesta série de pequenos escritos, é de realçar que para Sócrates e Platão, o Mal era apenas a ausência do Bem. Platão chamava-lhe um não-ser, e Sócrates proclamava que os actos errados são consequência da própria ignorância, e não da acção de nenhum Diabo. Ele mesmo nunca se proclamou sábio.
 

 
Na imagem: uma representação neoclássica, do pintor David, da morte de Sócrates. Condenado a beber cicuta por defender heresias como a imortalidade da alma, Sócrates aceitou corajosamente o seu destino.
 
 
27.8.08

Desenhando um Diabo...



Se pedirmos a alguém que nos desenhe o Diabo, não será o Leviatã ou a serpente do Éden que teremos, por certo. É mais provável que nos apareça um homem de aspecto muito sinistro, com cornos, pés de cabra, uma cauda, um misto de bode e ser humano! De onde terá vindo esta configuração?

O deus grego (chamado Lupércio na Roma Antiga) é um sério candidato a inspirador da figura do Diabo, como podemos ver:


 
Mas não terá sido o aspecto o principal determinante para a assimilação de/Lupércio à figura do Diabo cristão. Esta divindade pagã era um símbolo do desejo sexual e da reprodução, que as religiões cristãs ainda hoje encaram com sérias reservas.
 
O Paganismo dos Gregos e dos Romanos conviveu com os primeiros séculos de Cristianismo, e se os símbolos da crença oposta foram sistematicamente demonizados, este vinha a calhar...
 
 
 
 
Muito mais se poderia dizer acerca da construção desta imagem do Diabo. A primitiva Igreja Cristã tê-la-á dado por acabada sensivelmente aquando da queda do Império Romano, em 476 d.C..
 
O Diabo cristão foi definitivamente uma construção pós-bíblica.
 
O deus grego dos infernos, Hades, guardião do Tártaro - lugar de destino das almas dos homens maus - foi substituído pelo Diabo nas suas funções. Além de mais feroz, o Diabo dos cristãos recolheu características de diversos deuses pagãos, como vimos. O tridente de Neptuno, por exemplo, é indissociável de um Diabo que se preze...
 
 
27.8.08

O Lotã e o Leviatã

 
Os Cananeus, também vizinhos dos Hebreus durante séculos, possuíam igualmente na sua mitologia abundantes histórias de combates. O deus Baal, por exemplo, teria defrontado toda a espécie de adversários, desde monstros de sete cabeças a monstros marinhos, como Yamm, e, num deles, teria derrotado Lotã, que significa "aquele que se torce", ou a serpente.
 
 
No famoso episódio do Jardim do Éden, no Génesis bíblico, aparece-nos uma serpente. Em todo o Antigo Testamento nunca é dito que a serpente seja o Diabo.
 
No final do Novo Testamento, no Apocalipse de João, aí sim, aparece essa afirmação. Segundo alguns estudiosos, na escolha do texto do Apocalipse de João para integrar a Bíblia, terá pesado o critério de conter essa passagem, e ajudar assim a colmatar a ausência do Diabo no Antigo Testamento.
 


Note-se que diversas figuras da narrativa bíblica são geralmente identificadas como o Diabo, caso do Leviatã, o monstro das águas que as iluminuras medievais representavam como um peixe gigantesco.
 
O Leviatã é muito provavelmente uma reminescência do Lotã e do Yamm dos Cananeus.
Há várias figuras na Bíblia que se tem tentado assimilar ao Diabo. Contudo, nenhuma delas se compara às descrições que as religiões têm feito deste. Seja a serpente do Éden, seja o Leviatã, sejam outros seres que aparecem episodicamente na Bíblia, nenhum é, definitivamente, o Diabo.
 
 
27.8.08


Diabos Para Todos os Gostos

 

Em 1800 a. C. a mitologia babilónica apresenta-nos outra luta famosa, a de Ninurta, o herói, contra Azag, o demónio das águas. A duras penas o herói vence o monstro, e permite que a sua pátria beneficie de um sistema de irrigação, originando grandes progressos na agricultura.
 
 
 
 
 
Também da Babilónia, outro mito apresenta-nos o pouco tranquilizador Labbu, cuja cauda "varria um terço das estrelas do céu" - exactamente como no Apocalipse bíblico. Mais uma vez o herói-deus Ninurta entra em acção e neutraliza a ameaça...
Entre as civilizações Antigas, especialmente as do Próximo Oriente, são incontáveis os antepassados do Diabo cristão. Um dos mitos mais interessantes, é, contudo, o do combate de Ninurta contra o pássaro Anzu.
 
É que o Anzu, pela primeira vez, tem inveja do poder de Enlil, o chefe dos deuses, e tenta roubar-lhe a tabuinha dos decretos divinos. Anzu, de mensageiro dos deuses, quer passar a chefe supremo.
 
Semelhanças evidentes com a doutrina dos anjos caídos...
 
 
 
 
A Babilónia era fértil em mitos de combate deste tipo. O Enuma Elis é uma obra de 1100 a.C. em que se contam os trabalhos do deus Marduc para derrotar o monstro fêmea Tiamat. Morto o monstro, Marduc divide-o em duas partes, Terra e Céu.
 
Para os Babilónios, os homens eram nascidos do sangue de outro diabo, chamado Kingu, mandado matar pelo rei-deus Marduc. Essa sua natureza fazia com que, apesar de cada homem ser guardado permanentemente por um deus bondoso, este fosse substituído por um diabo sempre que era cometida uma falta. Também aqui encontramos raízes da doutrina dos anjos e dos demónios.
 
Os Hebreus, o povo que recebeu a revelação do Deus Único, o povo do Antigo Testamento, passaram cinquenta anos desterrados na Babilónia, no século IV a.C.. Como qualquer outro povo, absorveram influências dos povos vizinhos, e estas haviam de se reflectir nos escritos Bíblicos, como adiante veremos...
 
 
27.8.08  

Loki, Mais Um "Diabo"

 
Uma série de Banda Desenhada das mais apreciadas é Thor, inspirada na Mitologia nórdica. A acção desenrola-se em Asgard, a morada dos deuses, e as personagens são os deuses do panteão politeísta Antigo do Norte da Europa, onde hoje temos a Suécia, Dinamarca, Noruega, Islândia, Finlândia, Holanda, e Dinamarca.
 
Thor encontra paralelo no Zeus/Júpiter da Mitologia Grega e Romana, e, como estes, domina os ares, a tempestade, a chuva, o relâmpago e o trovão.
 
Na série Thor, como na Mitologia Nórdica, encontramos também o deus Loki, um dos mais ambíguos desse panteão, que é o senhor do caos, do fogo e da discórdia permanente.
 
Sobre Loki recaía a responsabilidade das desavenças entre deuses, que explicavam as perturbações do mundo humano. Assumia formas de diversos animais, mas é representado frequentemente com cornos.
 
Loki acabou por ser degredado para o subsolo, recebendo os lugares ermos, escarpados, as crateras e as cavernas designações contendo o seu nome. Com a cristianização da Europpa do Norte, esses lugares foram sendo rebaptizados como Escarpa do Diabo, Pico do Diabo, Gruta do Diabo, Poço do Diabo, etc..
 
 
As fronteiras políticas nunca foram obstáculo à propagação de crenças. A pedra esculpida da imagem em cima foi encontrada em Inglaterra, como pedra de construção de uma igreja. Data do século X e pensa-se que tenha sido esculpida por viajantes nórdicos.
 
Representa Loki, com os seus cornos proeminentes, e é sem dúvida mais uma versão de um deus pagão causador de perturbação e catástrofes, uma tentativa ancestral para explicar a presença do Mal no mundo, numa das suas múltiplas versões. Mais um antepassado do Diabo cristão, que hoje podemos encontrar, por exemplo, nos videojogos.
 
 
26.8.08

A História de Gilgamesh e Huwawa

 
A antiga Babilónia, possuidora de uma cultura multifacetada e original, inscreveu no Património da Humanidade conceitos elevados de Direito, Agricultura, Astronomia e Arquitectura. Nas clássicas plaquinhas de barro cozido, em escrita cuneiforme, o primeiro poema épico conhecido foi escrito cerca de dois mil anos antes de Cristo - é dez séculos mais antigo que os mais antigos escritos bíblicos.
 
Um poema épico babilónio relata a história de Gilgamesh, o herói que vai ao bosque cortar madeira e acaba por travar um ardoroso combate com o monstro Huwawa. Corta-lhe a cabeça e leva-a a Enlil, o rei dos deuses. Mas este, ao invés de ficar feliz, fica extremamente contrariado, pois Huwawa era o seu encarregado de executar os "trabalhos sujos".
 
O cenário do bosque, na evolução do mito, acaba por se assemelhar bastante ao ambiente do Paraíso Perdido da narrativa bíblica. A árvore que Gilgamesh pretendia cortar era guardada por uma serpente, e o demónio Huwawa tem flagrantes semelhanças com a representação popular e a figura do "Diabo".

Note-se que na perspectiva bíblica, a presença de um satanás simbólico, representativo do cumprimento das ordens de Javé, o Deus Único, lentamente vai dando lugar a um Satanás mais individualizado, como mais à frente veremos.
 
A quem se interessar por esta temática sugerimos o livro The Old Enemy. Satan and the Combat Myth, da autoria de Neil Forsyth.
 
 
 
 
25.8.08

Diabos Vermelhos



 
O deus egípcio Seth, cujo vermelho fazia lembrar o calor abrasador do deserto, foi protagonista de um dos primeiros mitos de combate conhecidos. Num mundo politeísta como o egípcio, nenhuma divindade era exclusivamente má. Os deuses tinham cada um a sua maneira de ser, e as disputas entre eles bastavam para explicar as catástrofes, grandes e pequenas, que sempre assolaram a Humanidade.
 
 
A ideia de deuses envolvidos em perpétuas tropelias dispensava a existência de um super poderoso ser exclusivamente dedicado ao Mal. Contudo, a ideia de um Deus Único trouxe consigo uma grave questão: de onde vem o Mal?
De facto, é difícil aceitar as secas, as fomes, as doenças, os sofrimentos físicos e morais de toda a ordem como obra de um Deus Todo-Poderoso!
 
- Se existe um Deus, e se este é Todo-Poderoso, porque permite tanto sofrimento?

As respostas a esta pergunta variam, e conduzem muita gente para a incredulidade. As religiões monoteístas têm atribuído ao Diabo, ou aos Diabos, toda a culpa do sofrimento humano.

Inevitavelmente é-se levado a questionar como podem existir criaturas capazes de desafiar o poder Divino. A explicação comum é que se trata de antigos anjos, caídos em desgraça e excluídos do Céu.

Não é uma explicação que satisfaça a Razão, pois é inconcebível que seres a que foi dado o privilégio de privar com o Altíssimo possam ter-se tornado nas mais pérfidas criaturas que existem. Nem é concebível que Deus, como o concebe o monoteísmo, possa admitir a existência de rivais e inimigos que lhE estraguem os planos!
 
Hoje em dia, as Igrejas Cristãs mais moderadas tendem a relativizar a figura e o conceito de "Diabo", não sendo raro encontrar-se sacerdotes que o consideram uma figura mítica. No entanto, em cultos sectários mais radicais, a figura do Diabo tende a ocupar um espaço maior do que a do próprio Deus. Nessas agremiações salvacionistas é imperioso passar-se a ideia de que quem não está dentro delas está em risco absoluto de cair nos infernos! É o "papão", de novo.
 
E por essas e outras, acaba por sofrer a ideia de Deus Único, Infinitamente Justo e Bom, prejudicada por essas visões infantilizadas, maniqueístas, irracionais, impregnadas de um profundo ódio ao que é diferente, e por isso mesmo alegadamente estará "fora da graça de Deus".
 
É difícil para alguém de bom-senso aceitar a existência real dos diabos, réplicas do Seth egípcio. Hoje em dia, os diabos não assustam ninguém, como exemplifica a claque de futebol dos Diabos Vermelhos.
 
 
 
25.8.08

Em Busca do Diabo Perdido




Propusémo-nos procurar as origens da figura mítica a que na cultura popular se chama "Diabo". Segundo a opinião de alguns historiadores, não há uma origem única. A figura que acabou por simbolizar o Mal na cultura Ocidental terá sido inspirada em várias divindades do mundo Antigo.

Antes de Moisés e do advento do monoteísmo, o panteão dos Antigos integrava vários deuses, cada um com as suas características, benévolas e malévolas. Nenhum era inteiramente bom nem inteiramente mau. Todos reflectiam características humanas, e nós, humanos, temos todos as nossas qualidades e defeitos. Os deuses eram, pois, criados à imagem e semelhança dos homens.

Era o caso de Seth e de Hórus, deuses do Antigo Egipto (na imagem).
Seth era o deus da violência e da desordem, da traição, do ciúme, da inveja, do deserto, da guerra, dos animais em geral e das serpentes. Era um deus particularmente temperamental, e nada simpático. Contudo, sendo também o deus da tempestade, os egípcios rendiam-lhe homenagens em períodos de seca.
 
Era assim que funcionava a relação entre homens e deuses: os homens ofereciam sacrifícios aos deuses em troca dos serviços destes.
 
Hórus era um deus bem mais agradável. Governava os ceús e os seus olhos representavam o sol e a lua. Batalhou arduamente com Seth e acabou por vencê-lo.

Temos portanto Hórus, um deus dos céus, com cabeça de falcão, que derrota um deus da desordem, Seth, habitualmente representado como cão, crocodilo, porco, burro e escorpião. Junte-lhe o pormenor das cores usadas para representar Seth - o preto e o encarnado - e temos um credível antepassado do "Diabo" das religiões.

Diabo Século XXI

 
 
Quase todos nós, os que fomos criados no Ocidente cristão, acreditávamos quando crianças que acima das nuvens reinava Deus, e debaixo da terra reinava o Diabo. A crença em Deus subsiste, na maior parte das pessoas, quando crescem. Já a crença no Diabo, afigura-se incompatível com a Razão. Para quem crê num Deus Todo-Poderoso, infinitamente Justo e Bom, a ideia de esse Deus permitir a existência de um Diabo, que procura perder os homens e conduzi-los ao tormento eterno, afigura-se aberrante!
 
É essa a posição da doutrina espírita acerca do Diabo e do Inferno.
 
Não obstante a maior parte das pessoas não acreditar na existência de uma criatura ou várias denominadas "diabos", antigos anjos, antigos exemplos de virtude, agora dedicados a fazer alegremente o Mal, a verdade é que o folclore à volta do(s) Diabo(s) é abundante. Na cinematografia de horror, na música, na literatura, em várias artes, o Diabo pontifica como figura misteriosa, perigosa, e detestável. Aquele que adoramos odiar!
 
As religiões explicam a existência de aparentes imperfeições na Criação com a actividade incómoda do(s) Diabo(s), que, apesar de provocarem toda a espécie de aborrecimentos, parecem felizes na sua missão. Segundo as religiões, Deus, estranhamente, não intervém para os meter na ordem.
 
Mas então - perguntar-se-á e com razão - de onde surgiu a crença nesse ser e nesse lugar? É o que tentaremos explicar nos próximos posts sobre este assunto.

Catolicismo - Céu, Inferno e Purgatório

Em crónica recente, o escritor José Reis Chaves, teólogo e biblista brasileiro, afirmava haver "pessoas que, dentro duma mesma religião, estão décadas, séculos e até milénios à frente de seus colegas de mesma crença." É com muita satisfação que acompanhamos a evolução da visão católica sobre a Justiça Divina. Os diabos e os infernos, os caldeirões ferventes e os fogos eternos, no sentido literal, já não são desta época. Já não assustam ninguém, e, pelo contrário, até provocam repulsa em quem sabe pensar, pela brutalidade e injustiça dos conceitos.

Há 150 anos, com a publicação de "O Céu e o Inferno", uma das cinco obras que constituem a Doutrina Espírita, Allan Kardec dava a conhecer o "Céu", o "Inferno" e o "Purgatório", precisamente como estados de maior ou menor felicidade em que se encontram os que deixam este mundo, segundo a narrativa dos próprios. Nesta entrevista, que traduzimos o melhor que sabemos, podemos testemunhar como a concepção católica, inicialmente hostil à nossa, dela se vai aproximando:


 
 
 
Torres Queiruga: "O Inferno e o Paraíso não são lugares, são processos espirituais."
 
La Opinión

"A definição de purgatório feita pelo papa não é novidade. Não tem cabimento uma descrição de uma geografia espiritual. O Purgatório é um fogo interior".

Assegura que a definição de Pugatório feita pelo papa não é novidade, mas que é parte do "senso comum teológico" desde há anos, e que uma situação similar ocorre com outros termos da tradição católica, tais como o Inferno e o Paraíso. A prova disso são análises anteriores feitas pelo teólogo corunhês Andrés Torres Queiruga, na sua obra intitulada "Que queremos dizer quando dizemos Inferno?".

 


- As palavras recentes de Benedito XVI representam uma mudança no conceito de Purgatório da Igreja?


- Não. A única coisa que demonstram é a ignorância teológica em que vive a nossa Sociedade actual, pois afirmar que o Purgatório não é um lugar físico, faz parte do conhecimento comum teológico desde há anos.

- Em que consiste então o Purgatório?

- Trata-se de um processo espiritual interno. É lógico pensar-se que, dado que ninguém morre sendo totalmente bom, haja uma espécie de conversão e purificação no encontro com Deus.

- As representações tradicionais deste conceito religioso geraram na população um entendimento errado do mesmo?

- Sim, e o facto de as pregações não estarem muito actualizadas neste sentido, também contribui para que a população desconheça o verdadeiro significado do Purgatório. Neste sentido, também há que dizer que as palavras do Papa são positivas, porque ajudam a que os católicos compreendam que o objectivo não é convencer Deus a purificar-nos dos nossos pecados, para que seja bom e nos livre das penas do Purgatório. O fundamental é alimentar a nossa fé e a nossa esperança de que o encontro com Deus seja para todos a salvação definitiva.

- Existe a mesma confusão com o Inferno e o Paraíso?


- Sim. Tanto o Inferno como o Paraíso são questões que ultrapassam o espaço e o tempo, e portanto não há que fazer uma descrição física de uma geografia celestial. Esses termos aludem a processos espirituais que intuímos, à luz das experiências reais que vivemos na nossa vida presente e que tratamos de expressar com símbolos que fortaleçam a nossa esperança. 

 
 

O Papa conclui a reforma da eternidade - 2

 

O papa conclui a reforma da eternidadeJuan G. Bedoya
El País

17 de Janeiro de 2011



"No início criou Deus e céu e a terra", reza a primeira frase da Bíblia. Para os que tomam este livro sagrado como doutrina literal, semelhante início ocorreu em apenas uma semana faz agora uns 6000 anos. Também sustentam que existiu um paraíso (um jardim chamado às vezes Éden, a terra das delícias), onde Adão e um apêndice costal chamado Eva tiveram dois filhos, Caim e Abel, que por sua vez... A ditosa história da maçã custou-lhes serem atirados para s trevas exteriores e terem que trabalhar, eles e os seus descendentes, para ganharem o pão "com o suor da sua fronte". O cronista bíblico não registou desemprego naqueles tempos.

É uma curiosa história, com serpente incluída e final infeliz. Na realidade... irreal. Mas as consequências foram terríveis. Como durante séculos o tema do paraíso terreno foi interpretado tal como foi escrito nos tempos do rei Salomão, os pregadores cristãos ensinavam que através de Eva entraram no mundo o mal e a morte, e que por isso a mulher merece o desprezo eterno. "Não sejais nunca nem Judas nem Eva", exortava Pio XII, nos anos cinquenta do século passado, de cada vez que havia ordenações sacerdotais em Roma e recebia em audiência os novos padres.

Há um grande número de pensadores cristãos que proclamaram nos anos sessenta, após o Concílio Vaticano II, o que agora pregam os pontífices. Mas, para o olhar do leigo, a nova escatologia papal vira do avesso a interpretação clássica dos textos sagrados e o que foi ensinado às crianças espanholas em catecismos tão afamados como os de Astete e Ripalda. Também cai estrondosamente a ideia de Tomás de Aquino sobre alguns dos prazeres essenciais dos que vão para o céu: para além da visão de Deus, o sábio Aquino sublinha a pouco cristã contemplação dos sofrimentos dos que foram atirados ao inferno.

Na mesma linha, o colossal Dante prega essa fruição vingativa quando na Divina Comédia, além de se deleitar com a visão da "região dos condenados", constituída por ladrões, usurários, proxenetas, traidores, príncipes negligentes, papas gananciosos e heróis desonestos como Ulisses (por causa do cavalo de Tróia), ajusta contas com os seus conterrâneos de Florença, dos quais foi prior antes de ter sido exilado. na sua viagem ao Além, o poeta cita 32 florentinos que apodrecem nos infernos. É humano tal regozijo, mas de tais exageros procede talvez o outro significado da palavra escatologia, na sua origem um derivado de ésjatos (último) e logos (estudo): o estudo dos últimos dias.

O regozijo de Dante ante o sofrimento dos condenados ao fogo eterno aterrorizou, por outro lado, a Unamuno, que qualifica de "absurdo moral" a simples ideia do inferno. "Por causa do inferno comecei e revoltar-me contra a fé. O meu terror começou por ser o aniquilamento, a anulação, o nada mais além do túmulo. Para quê ainda o inferno?", escreveu.

Com o inferno e com o resto da escatologia cristã, o Vaticano, com o seu enorme poder, encheu de sombras, tristezas e medos durante séculos a visão da Humanidade, com com limites tidos hoje por inaceitáveis. Um exemplo é o do pregador capuchinho Martin von Cochem, que chegou a fixar a altura das chamas do inferno, chamando a atenção para o facto de que o seu fogo é mais tórrido que o da terra: porque ocorre "em lugar fechado", "alimenta-se de pez e enxofre" e é Deus quem o sopra.

"Tu sabes",
diz Cochem, "que quando se sopra o fogo, este arde com mais ímpeto. Se o fogo se atiça com grandes foles, como se faz nas forjas dos ferreiros, as chamas enfurecem-se. Quando é Deus omnipotente quem sopra o fogo do inferno com o seu fôlego, quão horrível não será a sua raiva e o seu furor".

Que uma escatologia tão grosseira e disparatada tenha perdurado durante séculos, explica-se pela ânsia de imortalidade do género humano e pela esperança de um "além" após a morte. Defende-o o teólogo Manuel Fraijó, aluno na Alemanha de Karl Rahner, Hans Küng ou Walter Kasper (director da sua tese de doutoramento). "Já avisava Feuerbach que, se não existisse a morte, nunca existiria a religião. E Nietzsche atribuía a vitória do cristianismo a "essa deplorável adulação da vaidade pessoal lograda a golpe de promessas de imortalidade", acrescenta.

O inferno é, para mais, uma anti utopia destrutiva. Ao ameaçar com penas eternas, pretendia-se infundir o terror e provocar a fuga às tentações mundanas. O olhar o Além funcionava como distracção para alijar os crentes das duas responsabilidades na construção da cidade terrena.

Em fundo está a doutrina da ressurreição, que nasceu também como resposta à injustiça. Diz o teólogo Fraijó: "Existem os injustiçados, os humilhados e os ofendidos, as vítimas do egoísmo e da barbárie. A ressurreição vem satisfazer uma das necessidades fundamentais do ser humano, marcado por uma melancolia de plenitude que unicamente a ressurreição satisfaz. Existe uma antropologia, chamemos-lhe dos insatisfeitos, que que encaixa bem com o anúncio da ressurreição. Para ela, a ressurreição é uma exigência".

Nota: este artigo, que traduzimos (naturalmente com insuficiências próprias de amadores que somos) e postámos em duas entradas, foi publicado originalmente no jornal espanhol El País, mas recolhemo-lo do site católico Redes Cristianas. Juan G. Bedoya, o autor do texto (na imagem), é o jornalista responsável pela informação religiosa no jornal El País. Tanto quanto sabemos é católico e ex-sacerdote. Registamos com agrado que o Catolicismo, religião maioritária a nível mundial, se encaminha a pouco e pouco para a posição da filosofia espírita, enunciada há mais de 150 anos. Só que a Doutrina Espírita não se ficou por aqui. As obras básicas, começando por "O Livro dos Espíritos", continuam à espera de ser descobertas por pensadores de tanto valor como Bedoya. Vieram dos Espíritos - se tivessem vindo de um homem há muito que seriam conhecidas do vulgo. Mas também por isso nós, espíritas, nada temos de nos vangloriar. Não fomos nós que inventámos o Espiritismo; o Espiritismo é a Doutrina dos Espíritos, o Consolador prometido por Jesus.
 
 

O Papa conclui a reforma da eternidade - 1

 



Benedito XVI proclamou que o purgatório não é um lugar físico, mas sim um "fogo interior" do pecador - João Paulo II modificou em 1999 o conceito de céu e inferno, e antes de morrer questionou o de limbo.

Tudo é metáfora. Onde o Credo da Igreja Católica refere que os bons serão premiados com o o céu eterno e os pecadores castigados com um terrível inferno, na realidade não se refere a lugares físicos entre as nuvens ou debaixo da terra, mas sim estados de alma.

O mesmo é válido para o Purgatório, que o Papa Benedito XVI acaba de reduzir também a um simples "fogo interior". "O purgatório não é um elemento das entranhas da Terra, não é um fogo exterior, mas sim um fogo interno", disse o Pontífice na catequese de quarta-feira passada.

Jesus não foi um anunciador do inferno, mas sim da "Boa Nova". Ameaçava com a condenação para chamar o povo a converter-se.

Karol Wojtyla: "O céu não é um lugar entre as nuvens".


60% dos católicos crêem no Cristo, mas não no fogo eterno. João Paulo II sustentou algo parecido em Agosto de 1999 sobre o céu e o inferno, também meros estados de alma. Havia-o proclamado muito antes o filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre, com esta frase que fez escola: "O inferno são os outros".

Disse em 1999 o famoso Papa polaco: "O inferno, mais que um lugar, é uma situação de quem se afasta de modo livre e definitivo de Deus". E também que "o céu não é um lugar físico entre as nuvens, mas sim uma relação viva e pessoal com Deus".

Até agora, justificava-se escrever céu, inferno, purgatório e limbo com maiúsculas, porque se consideravam topónimos, "se bem que de carácter mítico ou imaginário". Assim o estabeleceu a Real Academia Espanhola na recente Ortografia da língua espanhola. O seu argumento é que esses substantivos "designam especificamente os lugares estabelecidos pelas distintas religiões como destino das almas após a morte".

Liquidados como topónimos míticos, perdem o direito à maiúscula. Fica por enviar um pedido de desculpas pelas desgraças e medos causados por esses espantalhos. Depois de galileu era impossível crer no céu tal como o apresentavam os eclesiásticos. Mas dizê-lo, foi perigoso durante séculos. No ano de 1600 foi queimado vivo Giordano Bruno; em 1616 foi condenado Copérnico, e em 1663, foi a vez de Galileu. O preço moral que o Vaticano pagou por essas barbaridades é elevado, mas maior é o pavor de milhões de fiéis que viveram - muitos ainda vivem - aterrorizados pela ideia de um fogo eterno, agora finalmente descartada.

Os papas livram agora os seus fiéis católicos dessa escatologia apocalíptica, tenebrosa e vingativa. Teólogos tão importantes como Hans Küng o Hans-Urs von Balthasar adiantaram-se-lhes 40 anos, o primeiro com grave risco de anatematização. Foi perito do Concílio Vaticano II por decisão de João XXIII e professor de teologia na Universidade Católica de Tubinga, quando foi destituído do cargo por causa dos seus escritos.

Em 1975 Küng escreveu sobre o céu: "Não se pode hoje, como nos tempos bíblicos, entender o firmamento azul como a parte exterior da sala do trono de Deus, mas sim como imagem do domínio invisível de Deus. O céu da fé não é o céu dos astronautas. Não é um lugar, mas uma forma de ser". Disse sobre o inferno: "Não deve entender-se como um lugar do mundo supratrerestre ou infraterrestre, mas como exclusão da comunhão com o Deus vivo".

Se tudo era tão evidente, porque será que os papas só tão tarde estão a rever a doutrina sobre o Além? Há três respostas. A primeira tem a ver com os conflitos com a ciência. Roma não quer repetir as histórias amargas de Galileu e Giordano Bruno. A segunda razão é fruto das estatísticas: 60% dos católicos crê em Cristo mas não no inferno nem no paraíso. E por último cumpre-se uma obrigação conciliar que deixaram atrasar mais do que seria prudente: a Igreja deve viver no seu tempo, e de actualizar a interpretação que anteriormente fez dos textos sagrados. Trata-se do "aggiornamento", a palavra preferida de João XXIII e do seu vaticano II:

O último mito a cair foi o do Purgatório. Tratava-se de um lugar intermédio entre céu e inferno, uma espécie de sala de espera. Nunca foi dito oficialmente onde se situava, e a sua entrada em cena, por volta de 1170, justificou a celebração do Dia de Todos os Santos... e o feio costume das bulas com que se comprava o céu para amigos e parentes.

Outro risco foi passado sobre a geografia escatológica, mais precisamente sobre o limbo. Diziam os catecismos clássicos que o limbo era o lugar para onde iam os que morriam sem o uso da razaõ e sem terem sido baptizados. Um lugar sem tormento nem alegria, algo parecido com estar absorto durante toda a eternidade.

O castigo consistia em viver num terceiro tipo de cavidade distinta do céu e do inferno, onde as almas cândidas, para além de estarem privadas de glória, sofriam com a ausência dos que tinham tido a felicidade de se salvarem: padres, frades... A doutrina tridentina incentivava com tão terríveis argumentos o baptismo rápido dos recém nascidos.

Foi João Paulo II quem ordenou em 2004, pouco antes de morrer, ao então cardeal Joseph Ratzinger (hoje Benedito XVI) a constituição de uma comissão que regulasse a abolição do limbo. Não era um problema teológico isolado. O papado sentia-se obrigado a modificar pontos de vista que haviam servido de papão aos seus fiéis. Assim, mudou também a visão que desde Santo Agostinho a Igreja de Roma tinha sobre o homem, como um ser irremediavelmente manchado pelo pecado desde que Eva e a serpente tentaram Adão. O papa procurava uma síntese que ajudasse a "uma prática pastoral mais coerente e iluminada". A doutrina que coloca no limbo os meninos que morriam com o "pecado original" não lavado pelo baptismo, é de origem medieval e pouco relevante entre os teólogos modernos, a não ser na medida em que se conjuga com a ideia (também eliminada com o Concílio Vaticano II) de que fora da Igreja romana não havia salvação.


(continua)
 
 

Barbárie - exorcismo faz mais uma vítima

 

A Humanidade terrena cresce em Ciência e em Tecnologia, mas tarda em amadurecer espiritualmente. Desta vez foi no Japão que a crença medieval nos "diabos" fez mais uma vítima. Que haja adultos que insistam em menosprezar a Medicina e embarquem em crendices sem fundamento nem lógica, já é difícil de entender. Que haja líderes religiosos que dediquem as suas prédicas a falar dos putativos "diabos" muito mais do que de Deus, idem aspas. Mas que haja pessoas que tenham o despudor de sujeitar crianças a procedimentos bárbaros como o dos exorcismos, é profundamente lamentável. Aqui vai a notícia:

A polícia prendeu nesta terça-feira em Kumamoto (sul do Japão) um sacerdote e o pai de uma adolescente de 13 anos que morreu afogada enquanto era submetida a um ritual de exorcismo, informou a imprensa local. Durante o ritual, que aconteceu há um mês, mas foi somente revelado nesta terça-feira, a adolescente Tomomi Maishigi foi amarrada em uma cadeira e teve água jogada sobre sua cabeça diversas vezes como parte do ritual budista para espantar os maus espíritos, informou o jornal Yomiuri em sua edição digital.

A polícia prendeu o pai, Atsushi Maishigi, de 50 anos, e o sacerdote Kazuaki Kinoshita, de 56, pela morte da adolescente. Os dois negaram as acusações e garantem que queriam somente "exorcizar os maus espíritos" e não cometer um abuso físico. Segundo policiais citados pelo Yomiuri, Tomomi perdeu a consciência na sessão de afogamento, na noite de 27 de agosto e, apesar de ter sido transferida para um hospital próximo, morreu na madrugada seguinte.

Os dois homens submeteram a menina ao ritual da "cascata" de água por mais de 100 vezes desde março, para o qual inclusive tinham solicitado a estadia da adolescente em um templo budista. Os pais de Tomomi pediram ajuda do sacerdote porque estavam preocupados com uma doença física e mental que a filha sofria, e este recomendou o ritual que supostamente a curaria depois de expulsar seus "demônios".

Notícia do site Terra. Agradecimentos a João Eduardo.