Mostrar mensagens com a etiqueta Mais crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mais crónicas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de maio de 2016

"A Bíblia adverte: 'Mantenha-se livre de todas os tipos de Testemunhas de Jeová'"

 

Na legenda, caso não consigam ler, está escrito:

"A Bíblia adverte: 'Mantenha-se livre de todas as formas de espiritismo' "

Não vale a pena lembrar aos militantes anti-espíritas que a doutrina espírita, ou Espiritismo, teve início no dia 18 de Abri de 1857, data da publicação de O Livro dos Espíritos. Antes dessa data não existia a palavra Espiritismo.

Toda a gente tem o direito de ser a favor ou contra aquilo que quiser. O problema são os apelos inflamados, bem à moda dos pregadores dos Estados Unidos (de onde estas religiões vêm, aliás), o estilo empolado, os encorajamentos a destruir o que não se conhece, e se julga mal porque não se conhece. dar com assuntos da área filosófica e religiosa já não se usa. Jesus de Nazaré, de que todas estas religiões dizem ser as únicas e exclusivas representantes na Terra, nunca aconselhou tais atitudes.

O acto de queimar livros é algo de muito grave. As pessoas bem educadas sabem que não se queimam livros, ainda que não se concorde com estes. 
 
Quando nos referimos a educação, não é a educação académica, os cursos escolares. Falamos de educação como formação moral, respeito pelo próximo. Quando a vida útil de um livro termina, este pode ser reciclado. Queimas em piras sacrificiais são próprias de outras eras. Eras de intolerância.

Podemos achar que estamos mais certos que outros, mas em caso algum devemos impor as nossas ideias pela força, pela intimidação e pela desinformação. Esses eram, por exemplo, os métodos da Inquisição, que este livro das Testemunhas de Jeová, aliás, tanto fustiga.

As Testemunhas de Jeová são, segundo a nossa experiência, pessoas honestas. Isso não as põe, infelizmente, a coberto de deslizes como o que ora focamos. Este tipo de apelos fomenta a intolerância. Como se sentiriam as Testemunhas de Jeová, se deparassem com um livro em que a ilustração acima viesse acompanhada da legenda:

"A Bíblia adverte: 'Mantenha-se livre de todas os tipos de Testemunhas de Jeová' "

Do que conseguimos divisar na imagem, as cartas de tarot, os mapas astrais, o tabuleiro ouija, qualquer coisa parecida com jogo de búzios, são apresentados como "formas de espiritismo".

É erro crasso chamar "espiritismo" a tais práticas.
  

Para além dessa mistura indevida, cremos que também essas coisas merecem o devido respeito, por muito que discordemos delas.


Café Portugal

 

Era sexta-feira, dia de actividades do centro espírita que frequento. Uma pessoa amiga, de passagem pela cidade, telefonou-me. Tinha uma oferta para mim, alguns livros e cd's espíritas. Com muita pena, não pude ir pessoalmente receber a oferta e cumprimentá-la.

Há sete anos que ali está o centro espírita. Nunca tivemos o mais pequeno atrito com os moradores. Frequentamos os estabelecimentos comerciais do bairro, tratamos toda a gente com cortesia, prestamos assistência às famílias carenciadas, acolhemos bem todos os moradores que já se acercaram de nós por qualquer motivo.

O centro estava ainda fechado, e achei que o saco ficaria bem à guarda do dono do café onde costumo ir. E assim foi. O Sr. Manuel, típico proprietário de café, parecia-me capaz de guardar uma pequena encomenda, um volumezinho do tamanho de uma caixa de sapatos das pequenas. Mais complicado que isso é a sua extraordinária habilidade para andar permanentemente com um cigarro aceso e um palito na boca, enquanto por debaixo do farto bigode brotam sábias considerações acerca de futebol e política.

Ledo engano... À noite, quando fui perguntar pela minha encomenda, o Sr. Manuel pôs um sorriso de miúdo traquinas, e declarou:

- Ó chefe, a minha Mulher viu que aquilo era m****s de Espiritismo, ela é contra essa m***a, de maneiras que deitou aquela m***a toda p'ó lixo!

Pedi desculpas pelo eventual transtorno e assegurei que a senhora podia estar descansada, que nada de mau lhe adviria por ter tido tais coisas sob o seu tecto. Benevolente, o proprietário fez-me saber que "ele por ele, nem liga a essas m****s, a Mulher é que tem raiva a essas m****s".

Além de fino comentador de bola e política, de exímio malabarista de cigarro e palito, este cidadão é dono, também, de muito tacto e boa educação! Para não falar da Esposa!... Já para não falar da capacidade de encaixar uma quantidade exorbitante de palavrões numa simples frase!...

Já temos tido algumas pessoas do bairro que se aventuraram a transpor as portas do centro. E fizeram questão de nos dizer o que por lá corre a nosso respeito: que andamos lá a espernear pelo chão e aos gritos, por causa dos Espíritos. E as pessoas sentem-se em perigo, com tanto Espírito por ali à solta, que nós, os malandros, para lá levámos...

Sentem-se no dever de nos dizerem que afinal o centro espírita é "o contrário do que julgavam"
 
Ficamos felizes por esses pequenos rasgões no espesso manto de preconceito que ainda cobre o nosso país. 
 
 

Vendedores de Milagres

 

Noticiam o jornais de hoje em edição digital, que "o estado do Rio de Janeiro entrou em 2010 com chuvas fortes e deslizes de terras. O mau tempo fez, desde quarta-feira, 36 mortos naquela região do Brasil."

Pergunto-me se os vendedores de milagres* que foram contratados para manter as chuvas longe da cidade irão devolver os pagamentos (caso os tenham recebido), ou se irão pedir desculpas públicas. Mas quem garante que afasta chuvas, também não terá sentido de responsabilidade para tal...

Mais uma vez fica patente que a Natureza segue o seu curso segundo leis imutáveis, que, para nós, são as fixadas por Deus. Não conhecemos Deus, não temos a pretensão de saber mais de Deus que os outros, mas deduzimos da organização, complexidade e perfeição do Universo, que este tem uma origem inteligente.

Acreditamos no Deus único, infinitamente justo, bom e perfeito. Por isso não cremos que Deus modifique as leis da natureza a troco de "subornos", sejam eles flores, velas, ou promessas. Tão pouco damos crédito aos que se anunciam dotados de capacidades sobrenaturais, que se apresentam como escolhidos, como especiais, capazes de milagres e prodígios. A humildade é que diferencia os verdadeiros dos falsos profetas. O espalhafato, o orgulho e a inconsistência moral e intelectual é que os denunciam.

Para as 36 pessoas que desencarnaram (morreram), chegou a hora do regresso à Pátria Espiritual. Para os nosso irmãos que se debatem com os prejuízos das cheias, é mais uma prova a passar, oportunidade de cultivar qualidades como a resignação activa. Aos que partiram, todos podemos valer com as nossas preces. Aos que ficaram, podemos valer com preces, com ajuda braçal na reconstrução, e com donativos de dinheiro ou materiais de construção. 

* Andam a Pedir Chuva...

Na edição online do jornal Correio da Manhã pode ler-se a seguinte notícia, de que assinalámos a encarnado algumas palavras:

30 Dezembro 2009 - 17h52
Para a noite da passagem-de-ano
Rio de Janeiro contrata espírita para travar chuva

O espectáculo da passagem-de-ano está preparado na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, onde são esperadas dois milhões de pessoas, das quais 500 mil são estrangeiros. Música, baile e um dos fogos de artifícios mais espectaculares do mundo não vão faltar. O que os responsáveis ‘cariocas' não querem é chuva.

Os meteorologistas prevêem uma chuva muito forte para a noite de amanhã, o que poderia impedir o espectáculo. O presidente da Câmara do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, quer contrariar as estimativas dos especialistas e, por isso, contratou uma armada de peso: magos, espíritas, curas e pastores evangélicos para que juntos impeçam a queda de precipitação.

A grande estrela é a espírita Adelaide Scrittori, da Fundação Espírita Cacique Cobra de Coral, que assegura ser capaz de incorporar um espírito que influencia a meteorologia. "Toda a ajuda espiritual é válida e bem-vinda", afirmou o presidente Paes, sustentando que os ‘cariocas' não sabem terminar o ano e entrar no seguinte sem uma explosão sensual de alegria.

Para provar que está mesmo empenhado, Paes ofereceu milhares de flores à deusa africana Iemanjá, que foram largadas em alto mar em sua honra.


Esta notícia é abusiva, por vários motivos. A saber:

- Se para essa "tarefa" de fazer parar a a chuva foram contratados magos, curas (padres) ou pastores evangélicos, não sabemos, pois não somos entendidos nessas áreas. Espíritas não foram, de certeza absoluta.

- O Espiritismo é uma filosofia cristã, racional, de cariz moral e que respeita o primado da Ciência. Para o Espiritismo não existem conceitos como o de Sobrenatural, e, como tal, não faz sentido fazer rituais ou intercessões para alterar o curso normal dos fenómenos da Natureza.

- O Espiritismo é cultura. Logo, não alinha em espectáculos ou golpes publicitários como e descrito na notícia. O Espiritismo é simplesmente o reviver da fraternidade e discrição dos primeiros cristãos.

- A Fundação citada na notícia, não só não é espírita, como nem tem a designação de espírita na sua sigla. Alguns centros de Umbanda e Candomblé, no Brasil, usaram essa designação nos seus nomes porque á época da sua criação era mais fácil adquirirem a personalidade jurídica dessa forma. Nem sequer é o caso aqui.

- A citada Senhora, que pelos vistos é a líder dessa fundação que se destina a fazer chover, não é, evidentemente, e pelos motivos acima citados, espírita. Poderá eventualmente ser médium, o que é totalmente diferente.

- Médium é alguém que supostamente é dotado de percepção extra-sensorial e que captará impressões ou mensagens do Além. Espírita é alguém que simpatiza com a filosofia espírita.

Este é o texto que enviei para o Correio da Manhã. Consigo entender que se confunda médium com espírita, e Espiritismo com religiões ou crendices, mas não entendo porque é que se insere a designação de espírita onde ela nem consta, no original.

Que haja quem se proponha fazer chover, não temos nada contra. Mas não misturem o Espiritismo com essas actividades, por favor.

"Um Excelente Exemplo"

 

Era decerto uma editora com contactos privilegiados. Dezanove séculos antes do lançamento de O Livro dos Espíritos, em 18 de Abril de 1857, data em que o termo "Espiritismo" viu a luz do dia, esta editora de Éfeso já publicava "livros sobre espiritismo"!

Assinale-se também o notável poder de antecipação das Testemunhas de Jeová da época. É que a Igreja Católica Apostólica Romana, habitualmente atenta nestas coisas de queimas de livros, só em 1 de Maio de 1864 viria a incluir a obra no Índex (a lista de livros que os seus fieis estão proibidos de ler).

A 9 de Outubro de 1861, contudo, as autoridades eclesiásticas de Barcelona, Espanha, já haviam apreendido e queimado 300 volumes espíritas encomendados pela Livraria Lachâtre. Allan Kardec chamou ao triste episódio do Auto de Fé de Barcelona "O Resto da Idade Média", em artigo publicado na Revista Espírita.

Kardec estava a ser optimista. Em 2009, eis que dou de caras com a obra "Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra", editada pela inevitável Watchtower da Pensilvânia, a editora-mor das Testemunhas de Jeová.

Um livro que aconselha como "excelente exemplo" a queima de livros, sem análise dos mesmos.
 
 

Imaginemos que a morte não existia...

 

Estava aqui a pensar, a propósito de uma questão que uma leitora e amiga nos apresentou, acerca do Dia de Finados, no sofrimento que por estes dias atinge tanta gente. Haverá alguém, crente ou ateu, que não sofra com a ausência dos entes queridos que se foram?

O crente (seja ele católico, budista, espírita, evangélico, umbandista, racionalista cristão, etc.), sabe que a morte é uma separação temporária. Mas, ainda assim, é uma separação. E por isso, o crente sofre.

O ateu gaba-se de ser forte, e de por isso não precisar de acreditar em Deus e na imortalidade, que, segundo ele, são fábulas para gente ignorante e fraca. No entanto, ao ateu a ausência também dói. E por isso o ateu sofre.

Ao crente envolvem-no as incertezas do credo que abraça. Estarão os entes queridos bem, lá no Além? E se houver Céu e Inferno, para onde irá cada um dos seres amados? Como poderá um pai ser feliz na Eternidade sabendo que um filho foi precipitado nas chamas eternas, num suplício sem fim?

Ao ateu, tamanha injustiça parece indigna e covarde, imprópria de Deus, que lhe dizem ser suprema perfeição (e como não concordar com esse raciocínio do ateu?...).

Mas... imaginemos agora por um instante um cenário quase de ficção científica:

E se, após o corpo exalar o último suspiro, dele se desprendesse um outro corpo, igual ao que se findou, mas todo translúcido, luminoso e vivo? E se esse corpo fosse afinal o nosso corpo, e o que morreu apenas um invólucro temporário?

E se nesse processo de libertação do corpo que usámos na Terra, fôssemos ajudados por outros seres como nós, que outrora viveram na Terra, e que nos vêem esperar? Por familiares e amigos, por gente boa e amiga, em ambiente de alegria e júbilo?

E se fôssemos conduzidos a lugares de esplendor e harmonia, no meio de uma paz completa, calorosamente saudados, no término da nossa viagem no mundo material; e se nos fosse dado repousar e retomar uma vida ainda mais activa que na Terra, uma vida de trabalho e estudo, de cooperação e progresso?

E se fosse assim?...

Parece ficção científica, é certo! Mas os telemóveis e os microondas também pareciam, há uns anos. E a ideia de a lua e as estrelas serem mais que pontinhos minúsculos a coruscar na abóbada celeste, também era antigamente inaceitável. E no entanto a Terra move-se (como diria Galileu)! E avança...

E, um dia, olharemos com ternura para as nossas ainda pobres concepções sobre a vida além da vida:

- Para os ateus, uma fábula pegada, de anjos e demónios, de deuses barbudos com raios de tempestade nas mãos a provocarem catástrofes na Terra para seu perverso recreio.

- Para os crentes, um labirinto de contradições, em que os teólogos ainda não decretaram em definitivo se o Inferno já está ocupado ou se alguma vez o será - se é que existe. E se o Céu é de acesso imediato ou só abre no Dia do Juízo Final, o que equivale a não se saber se ficamos a dormir até esse dia ou se vamos já para um dos destinos disponíveis - Céu, Inferno e Purgatório - agora que o Limbo foi encerrado! E em boa hora, que era uma afronta à inteligência humana!

Imaginemos então que a morte não existia... Imaginemos que o cenário acima traçado era a realidade...

Boas notícias: é a realidade! E a realidade supera sempre a ficção...


 
Na imagem: uma cena do filme "Nosso Lar", baseado na obra homónima do Espírito André Luiz, psicografado por Chico Xavier.
 

Vida Feliz Logo de Manhã


 
O Espiritismo bateu-me à porta diversas vezes, mas demorou até que eu perdesse as apreensões e me decidisse a averiguar do que se tratava. Uma tia minha, era eu ainda miúdo, falava-me frequentemente das coisas prodigiosas a que tinha muitas vezes assistido numa associação espírita que frequentava. 
 
Era uma daquelas associações antigas, isoladas pela proibição Salazarista, e muito viradas para a mediunidade. Daí que a minha tia me falasse sobretudo dos médiuns que literalmente tocavam piano e falavam Francês - sem o terem aprendido, naturalmente. Na minha imaginação desenhava-se uma sala escura, vitoriana, formas retorcidas de pau preto, cortinados de veludo, e as inevitáveis mesas de pé-de-galo. Pouco convidativo para um garoto de 12 anos...
 
Mais tarde, foi através do programa radiofónico "O Passageiro da Noite", cujo animador era Joaquim Letria, que ouvi falar de novo acerca de Espiritismo. Tratava-se de um programa de chamadas em directo, o então novo formato phone-in, que contava periodicamente com os telefonemas de um senhor de nome , espírita. O apresentador do programa, agnóstico assumido, acolhia o senhor Pimentel sempre com muito interesse e enchia-o de perguntas que reflectiam a curiosidade dos muitos ouvintes da emissão.
 
Foi, contudo, quando folheei o primeiro livro espírita que entrevi nesta filosofia mais que uma consistente explicação para os enigmas da vida e do mundo. "Vida Feliz", de Divaldo Franco/Joanna de Ângelis, que encontrei por acaso, perdido num canto, aqueceu-me o coração. Filosofia prática e popular, nem por isso menos admirável, a ideia que me fez brotar foi a de que nunca tinha lido nada que "adivinhasse" tão certeiramente os pequenos dilemas e preocupações do nosso quotidiano.
 
Quando fui ver quem era o autor, fiquei admirado por se tratar de um Espírito. As minhas apreensões foram vencidas pelo esclarecimento e consolo proporcionado pelas mensagens claras e concisas. Não sabia que se tratava de um livro espírita. Apenas gostei muito dele.
 
Hoje continua a ser o meu livro de cabeceira mais fiel. Tenho um amigo que insiste sempre na necessidade de dedicarmos ao Espírito imortal pelo menos o mesmo cuidado que dedicamos ao corpo perecível. Uma pequena leitura e oração, são excelente maneira de começar o dia, bem o sei. Mas as rotinas muito materiais da manhã teimam em me atropelar os bons propósitos... Procuro, ainda assim, uma página ao acaso do "Vida Feliz" para ler e meditar, e sair de casa numa boa sintonia. O livro cabe na palma da mão, é muito acessível e muito mais útil que ir, como a minha tia, ver os médiuns tocar piano e falar Francês.
 
......................................
 
Os lucros da venda dessa obra, como de todas as obras de Divaldo Franco, ainda que pequeninos, revertem a favor da obra assistencial Mansão do Caminho.
 

Uma Rosa na Porta do Centro


Os cépticos vão desdenhando, vão exigindo provas, vão desdenhando das provas que se lhes apresenta. Vão troçando. Os fanáticos vão clamando que o Espiritismo é o Diabo. Vão difamando. Os espíritas, seres imperfeitos como quaisquer outros, vão dando o seu melhor. Em troca da satisfação do dever cumprido. Na discrição, sem alaridos.

O João César das Neves vai dizendo que o Espiritismo é uma "impostura pseudo-cristã", os jornalistas do Jornal de Notícias vão designando charlatães como "espíritas", os materialistas vão emitindo chispas de indignação perante a simples possibilidade de a vida não acabar com a morte do corpo. Os desiludidos, os obsidiados, os que se sentem perdidos, vão encontrando o Espiritismo e colhendo alívio dos seus males. Na discrição, sem alaridos.

Hoje estava uma rosa na porta do centro espírita, quando chegámos. Quem a terá posto? Certamente alguém que  foi ajudado e sabe que os espíritas não aceitam pagamentos nem presentes, e resolveu exprimir assim a sua gratidão. 
 
Os espíritas pouco ajudam. Os Bons Espíritos ajudam quem se presta a melhorar-se. Contudo, a bondade das pessoas é grande, e além de agradecerem a Deus e aos Bons Espíritos, entendem que também devem agradecer assim. Na discrição, sem alaridos.

Navegação Nocturna


Poucas pessoas haverá neste mundo que amem tanto o mar como eu, arrisco dizer. A orla costeira, encontro entre terra, mar e céu, tem o condão de nos fascinar a todos, e de nos deixar, crentes e não crentes, maravilhados com a beleza sublime da Criação. 

Qualquer pessoa dotada de um resquício de sensibilidade dá por si a contemplar o mar. 

Por gostar tanto do mar, desde cedo que me tornei mergulhador, para explorar o mundo que está abaixo da superfície, ali tão perto mas tão escondido.

Tornei-me velejador pelo apelo do imenso deserto líquido, das horas a sós com as ondas e os ventos, imerso em silêncio, espuma e imensidão.

Cavalguei as ondas em pranchas de surf, vi o sol nascer na praia, assisti a incontáveis crepúsculos com os pés na água. Dormi na praia. Passei dias a pescar nos promontórios, a explorar o continente que se estende pela linha de costa de todos os continentes e de todos os oceanos.

Sempre me senti mais perto de Deus sozinho na praia do que em qualquer templo construído pela mão do Homem. À beira-mar, como em nenhum outro lugar, sempre senti essa espécie de apelo de Espiritualidade.

Assisti à comercialização da praia. Nunca deixei de sentir um certo desconforto ao ouvir os "operadores turísticos" se lhe referirem como um "produto".

Assisti à destruição da praia. À gula insaciável dos especuladores imobiliários. Às vistas curtas dos políticos, à demolição das casas antigas e à invasão dos areais, das dunas, das falésias, por construções cruelmente impróprias, obscenamente medíocres.

Assisti às invasões sazonais da multidão que lamenta que o seu orçamento não lhe permita estar numa ilha tropical, num daqueles resorts fechados e iguais uns aos outros em qualquer parte do mundo. 

Cansei-me. Do alarido permanente, das bofetadas nas crianças, das gritarias domésticas que atravessam paredes e nos castigam os ouvidos e a alma, do espalhar de lixo material e verbal como forma de estar na vida, das brigas entre os automobilistas stressados e dos jovens condutores cheios de álcool. Deixou de compensar, o desassossego causado pela multidão "consumidora" de praia, e a destruição causada pelos "operadores" do "produto".

Hoje estou por aqui acidentalmente. O panorama é o mesmo e cansa-me. A noite cai, e a escuridão vai-se espalhando como tinta da china despejada num copo de água. A frescura realça o cheiro da maresia. Um véu piedoso cobre a terra, o mar e o céu, onde já refulgem as primeiras estrelas.

Relembro o conselho dos Espíritos para que contemplemos os globos que rolam no Espaço e imaginemos os seus habitantes, em mundos mais e menos felizes que o nosso. Quantos velejadores siderais em águas cristalinas, bendizendo a beleza sublime da Criação...


A Caminho do Vértice...

 
Casualmente sentámo-nos à mesma mesa, para almoçar. Quatro companheiros de trabalho. Casualmente a conversa foi parar à imortalidade da alma e a todas as questões que lhe estão associadas. 

Casualmente sentaram-se à mesa um ateu, um agnóstico, um religioso e um espírita.

A conversa decorreu com a maior cordialidade, sem ninguém querer impor as suas convicções.

O ateu baseava a sua opção pela escassez de evidências científicas.

O religioso opinava que a imortalidade da alma é do domínio exclusivo da religião.

O espírita (que era eu) considerava que as descobertas científicas enaltecem a grandeza da Criação Divina.

O agnóstico, coerentemente, declarou não ter bases para crer ou deixar de crer.

Contudo, deu-nos uma imagem assaz interessante. Comparou a evolução do Conhecimento humano a uma pirâmide. Cada aresta da pirâmide representa uma opinião, uma visão do mundo, um indivíduo, um grupo de indivíduos. À medida que evoluem, que "sobem", as arestas aproximam-se, até que se unem, no vértice.

Também nós quatro, como arestas de uma pirâmide quadrangular, experimentámos ali uma aproximação que não é comum, graças a essa imagem tão sugestiva e sábia.

Quererá isto dizer que existem várias verdades? Será uma apologia do relativismo? Nem por isso. A analogia da pirâmide chama-nos a atenção para que a complexidade do mundo ultrapassa muito os nossos conhecimentos actuais, e para que a nossa visão do mundo depende muito do ponto de vista em que nos colocamos, das nossas experiência pessoais e das nossas influências.

No mínimo, esta analogia apela à tolerância. Não há motivo para que as pessoas se exaltem, como muitas vezes acontece, por causa de diferenças de ponto de vista. Humildade e respeito devem estar sempre presentes nas relações humanas.


Boas Férias!

"Aquele que sabe o que é o suficiente, terá sempre o suficiente."
Lao-Tze


É Verão no hemisfério norte. É período de férias para boa parte das pessoas. Uma pausa no trabalho é muito bem-vinda, e é um direito relativamente recente dos trabalhadores, que até há algumas décadas não beneficiavam de férias, fins-de-semana, subsídios de desemprego ou assistência na doença.
 
As férias, idealmente, deveriam ser um período de repouso, de mudança de ares, de renovação interior. Contudo, a mentalidade materialista vigente tende a fazer das férias mais uma orgia de consumo. A ideia de que "muito" é sempre sinónimo de "melhor" molda-se como uma luva aos excessos que se vão tornando imagem de marca dos períodos de férias. 
 
A palavra de ordem desta época é mesmo o "muito"... Comer muito, beber muito, dançar muito. Também muitos medicamentos para as indigestões, para as ressacas, muitos estimulantes para combater o sono - pois é preciso aguentar o "ritmo"... Aumentam os acidentes rodoviários, por via do álcool e da excitação. Aumentam as brigas, pelos mesmos motivos. Causam-se danos ao organismo, motivados pelos excessos. Paradoxalmente, a ânsia de diversão descamba em angústia e insatisfação.
 
Esta é uma das facetas da filosofia materialista, que:
- põe toda a felicidade na satisfação das necessidades corpóreas e dos instintos básicos;
 
- afirma que só há uma vida, e que é preciso "aproveitá-la bem";
 
- não estabelece limites claros entre o certo e o errado, dando primazia à busca do prazer.

O Espiritismo, como filosofia espiritualista que é, afirma exactamente o contrário, ou seja:

- a felicidade terrena advém da satisfação das necessidades materiais essenciais e da consciência tranquila;
 
- somos seres eternos e vivemos muitas vidas terrenas, nas quais devemos dar prioridade ao nosso aprimoramento interior;
 
- as leis divinas ou naturais estabelecem regras que, se cumpridas, nos asseguram a paz interior e a felicidade possível neste mundo.

As leis morais são apresentadas no Capítulo III de O Livro dos Espíritos. A lei da conservação estabelece que devemos cuidar do nosso corpo, ferramenta essencial para o cumprimento da nossa missão. Devemos igualmente respeitar a integridade física do nosso semelhante.
 
Devemos atender às necessidades do corpo, sem o sacrificarmos. Comer, beber, dançar, tudo nos é lícito, na devida conta, que a Natureza estabelece. Mas devemos atender também às necessidades do Espírito, e essas não as vamos satisfazer apenas nos prazeres mundanos. Alimentar o espírito é cultivar os bons pensamentos, as boas acções, as boas leituras, a meditação a oração. 
 
O período de férias, e a quebra da rotina que este proporciona, pode ser excelente oportunidade para sintonizarmos mais profundamente com a Espiritualidade. Dessa forma, não precisaremos de "aguentar o ritmo", mas sim de abrandar o ritmo.

Dizem-nos os Espíritos, em O Livro dos Espíritos, que as leis de Deus estão inscritas na nossa consciência. Sabemos portanto, intuitivamente, a justa medida para a satisfação das necessidades do corpo e do Espírito. Abrandemos, contemplemos a Natureza, apuremos a nossa sensibilidade para ouvir a voz de Deus, que se faz presente em tudo o que nos rodeia.

Boas Férias!
 
 

Pequena Crónica do Advento


Eram já umas nove e meia da noite e eu ainda estava a trabalhar. A senhora que vinha fazer a limpeza abriu a porta do gabinete e ficou surpreendida por ainda haver gente no edifício.

- Eu já vou embora, já a deixo trabalhar - gracejei, enquanto vestia o casaco e me preparava para sair.

- Este trabalho é muito solitário, mas a pior altura do ano para o fazer é esta - desabafou ela apontando para as decorações natalícias.

- Uma pessoa neste silêncio durante horas, pensa muita coisa. Há árvores de Natal e luzes a brilhar, mas as pessoas continuam a não pensar em quem passa necessidades, em quem está sozinho, em quem sofre. E parece que ainda custa mais quando resolvem pôr de parte a antipatia habitual nesta época, porque aí a gente vê que eram capazes de o fazer todo o ano.

- Havemos todos de conseguir, D. Natália - disse eu - se não for nesta vida será na próxima...

Aí ela lembrou-se de que sou espírita e sorriu.

Enquanto cruzava as ruas em direcção a casa não pude deixar de sentir o contraste entre o aparato decorativo, e os dramas que se vivem neste nosso mundo ainda tão imperfeito. Os pais-natais mecânicos nas lojas tornaram-se um símbolo instantâneo da superficialidade com que atravessamos esta época. Uma gigantesca operação comercial, é o que o Natal se tornou. Um gigantesco incómodo de presentes, mensagens, compras, decorações, viagens e obrigações.

Não admira que a D. Natália só sossegue, como me confessou, a seguir ao Natal. Uma sensibilidade apurada como a dela sente estas contradições como farpas.
 
Mas não será sempre assim.