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sábado, 14 de maio de 2016

O Melhor Guarda-Redes do Mundo

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É sempre o primeiro a chegar e o último a ir embora. É o mais entusiasta, o mais empenhado, o mais combativo da minha equipa de jovens jogadores de xadrez. É o Eugénio. Tem 13 anos, é simpático, bem-humorado e inteligente. Uma negligência médica durante o parto fê-lo ficar com uma deficiência motora que lhe atinge o lado esquerdo do corpo. Coxeia acentuadamente, e tem pouco equilíbrio.
 
Tenho vindo a conhecê-lo aos poucos. No final dos treinos costuma desafiar-me para uma partida, pois já percebeu que nessa altura estou cansado e é mais fácil ganhar-me. A sua argúcia e vontade de vencer só rivalizam com o seu impecável desportivismo. É um miúdo fora de série.
 
O físico delicado e o temperamento afável contrastam com a garra que sabe mostrar quando é preciso. Faz-me sempre lembrar o seu homónimo Gene Vincent, pioneiro e figura emblemática do rock’n’roll, que também parecia ter em si duas naturezas. Com o seu pulover branco e ar de menino bem comportado, era a imagem da doçura. Com a camisa negra, em cima do palco, transmitia uma energia indomável que arrastava multidões. Também coxeava, o Gene Vincent. Essa característica contribuía para a composição da sua imagem de palco, e fazia as raparigas entrar em euforia.
 
Um destes dias durante uma das habituais partidas de xadrez com o Eugénio, falávamos da sua ambição de vir a ser técnico de futebol, talvez de vir a treinar o Benfica. A conversa ia amena e bem-disposta, como de costume, mas eis que os olhos se lhe enchem repentinamente de lágrimas, que começam a cair copiosamente sobre o tabuleiro de jogo. Confessa-me que, antes de ser técnico de futebol, o que mais queria era jogar futebol! E não pode. Entre soluços, com a frontalidade dos seus 13 anos, pergunta-me porque é que Deus permitiu o que lhe aconteceu. “Eu só queria poder jogar futebol!”.
 
Estou gelado. Estou gelado por dentro e por fora. Respondo que acho que Deus tem uma razão para tudo o que faz, mesmo que nós não a entendamos às primeiras. Talvez ele esteja temporariamente a lutar com uma dificuldade, como um futebolista que se oferece valentemente para jogar, mesmo lesionado.
 
Ele baixa a voz e olha em volta. “Eu acho que nós vivemos várias vezes” – sussurra – “mas tenho medo de vir sempre assim, com esta deficiência!...”
 
“Amigo Eugénio, eu acredito firmemente que vivemos várias vezes, como tu dizes. E garanto-te que podes pôr de parte esse receio”.
 
Ele suspira. Parece que de uma assentada percebeu que Deus não foi injusto em mandá-lo jogar o jogo da sua vida lesionado, e que terá mais oportunidades de jogar, em plena forma.
 
Lembrei-me do Gene Vincent, e como tínhamos o computador ali à mão, mostrei-lhe as flagrantes semelhanças entre os dois. Falámos da perna magoada do Gene, das suas músicas, e do desassossego que ele causava entre as raparigas.
 
Pergunto-lhe a que posição gostava de jogar. “A guarda-redes, mas costumo ficar a arbitrar…”.
 
Continuámos a jogar a nossa partida de xadrez, enquanto a calma voltava a inundar-lhe as feições. 

Aos poucos, foi recuperando o sorriso que lhe conheço. Tomou uma resolução. Ia treinar com o irmão, em casa, e pedir uma oportunidade como guarda-redes.
 
Chegou o dia do Torneio de Futebol da Páscoa. Gritos entusiasmados ecoam na manhã primaveril. Há uma silhueta esguia na baliza, toda vestida de encarnado. Atira-se galhardamente à bola, disparada em remates fulminantes. Estou emocionado! Estou a ver o melhor guarda-redes do mundo!


"Por Toda a Eternidade!"


Aguardava a minha vez de pagar, na loja de jornais, quando entrou de rompante uma perfeita sósia de Bianca Castafiore, a cantora de ópera das aventuras de Tintin. Figura avantajada, busto farto, nariz empinado, envolta em roupas pomposas e adornada de jóias pesadas, a vistosa senhora ultrapassou toda a gente sem cerimónias e fez ouvir bem alto a sua voz: - Ó Amélia, deixei aqui o meu jornal?

- Não, Senhora D. Fulana
– esclareceu, solícita, a rapariga.

- Ah! Então não há dúvida de que mo roubaram! E, perante a estupefacção geral, a senhora encetou uma descrição terrivelmente pormenorizada de todos os sofrimentos excruciantes que desejava ao ladrão do jornal. Um dos clientes não se conteve e exclamou:

- Que horror, minha senhora!...
 
- Acha um horror? Pois fique sabendo que muito pior vai ser o que o ladrão vai sofrer no Inferno por toda a Eternidade! - e repetia, pontuando as palavras com o bater da unha escarlate sobre o balcão: - Por-to-da-a-E-ter-ni-da-de!!! Por-to-da-a-E-ter-ni-da-de!!! 

Em vão o bem intencionada cliente lembrou à senhora o valor do perdão. Tais conceitos, segundo ela, estavam “ultrapassados”. Preferia a doutrina das penas eternas, defendida por algumas religiões cristãs, que na ocasião melhor lhe servia para descarregar a irritação.

De facto, Jesus nunca pregou as penas eternas. As “trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes”, já são suficientemente preocupantes para quem estude séria e racionalmente o assunto. Ferver eternamente em caldeirões de azeite, picado por forquilhas empunhadas por diabretes impunes, foi papão que a imaginação e o êxtase místico criaram.

O Deus de Amor é incompatível com a monstruosidade de sofrimentos intermináveis, mas muito boa gente ainda acredita que nos esperam, em definitivo, o Céu, o Inferno ou o Purgatório. Por recusarem essas ideias ingénuas e injustas, outros não esperam nada após esta vida, ou quanto muito esperam uma vaga absorção ao Todo Universal. Três hipóteses que não satisfazem a Razão nem a sensibilidade. Não tem base histórica nem científica.

Jesus pregou uma “colheita” de felicidade após esta vida, proporcional à “sementeira” de abnegação e amor ao próximo. Contudo, dois mil anos volvidos, a profundidade dos seus ensinamentos continua a ser escamoteada.

Jesus divulgou uma mensagem universal de amor a Deus e ao próximo, de Justiça e Caridade. Mas cada seita tende a afirmar-se como “a mais fiel representante” de Jesus, dando dele a imagem de um chefe religioso, em nome do qual se impõe o cumprimento de preceitos e rituais. De Jesus exalta-se sobretudo o sofrimento da cruz, e em nome dele transmite-se um sentimento de culpa para a Humanidade inteira. É desta imagem errada, de Jesus como chefe religioso sectário e divulgador de um Deus austero, que muitas pessoas se afastam.

Allan Kardec, chamado o Codificador do Espiritismo por ter redigido as cinco obras básicas da doutrina dos Espíritos, chamou a uma delas “O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo”. A primeira parte desta obra é um estudo filosófico e histórico admirável, de ideias bem arrumadas e lógica cristalina. Aí vemos, por exemplo, que as religiões cristãs copiaram e exageraram o Céu e o Inferno do paganismo. Na segunda parte, a vida após esta vida terrena aparece-nos despida de imagens simbólicas, narrada pelos seus protagonistas, os Espíritos. Mais felizes os que semearam bem. Menos felizes os que semearam mal.

Somos nós que nos enredamos nos infernos das nossas más acções e baixos sentimentos. Somos nós, também, que construímos o nosso “céu”, mercê do esforço no Bem, no cumprimento das leis eternas. Mesmo os mais recalcitrantes acabarão por se redimir, e evoluir para estados mais felizes, pelo seu esforço. É esta a mensagem de Jesus, que o Espiritismo confirma e demonstra. Deus é infinitamente justo e bom!


Eu, o Ankou...

 
Fato rasgado, chapéu de aba larga, aparência de esqueleto e grande foice nas mãos, o Ankou é uma figura fantástica, que povoa as lendas da Baixa Bretanha, França. Nas noites escuras, no meio das brumas que vêm do Atlântico Norte, o Ankou vagueia pelos caminhos, recolhendo as almas dos mortos na sua carroça, para as transportar para o outro mundo. É uma figura temida, mas sempre presente. À beira das estradas, ou nas igrejas, esculturas mais ou menos assustadoras do Ankou ostentam legendas como “A morte, o julgamento, o Inferno frio, Quando o homem em tal pensa, deve tremer”.
 

Numa manhã ensolarada de sábado, fui distribuir panfletos: “Conferência Espírita; A Vida Após a Morte"; Auditório da Câmara Municipal”. Entrava nas lojas, nos mercados, nos cafés, nas barbearias, pedia autorização, e deixava os papelinhos. Uns, indiferentes, autorizavam sem sequer olhar.Ponha aí, ponha aí…” ou perguntavam “onde era o baile”

Outros liam e olhavam-me, divertidos, como quem diz: Há cada maluco neste mundo…”. Um ou outro, sobretudo os mais novos, despacharam-me, com ar desconfiado, e um seco “Deixe ficar que eu depois penduro”. Bastantes, sobretudo os menos novos, acolheram-me muito bem, fizeram muitas perguntas, contaram muitas experiências.

Entrei numa papelaria, pedi a autorização da praxe, e, enquanto colava o panfleto no balcão de vidro, a senhora franziu a testa e disse, com uma pontinha de incómodo: “É assunto que não me interessa nada…”. Um pouco constrangido, respondi-lhe que, apesar de tudo, como é assunto que mais tarde ou mais cedo vamos ter que enfrentar, mais vale sabermos um pouco acerca dele.

A senhora ficou pensativa. E eu também. Sentado num banco de jardim, descansando de três horas a palmilhar as ruas, fiquei a olhar para os sapatos e a perguntar-me se teria estragado a manhã daquela simpática senhora. E foi então que me senti o Ankou, lá da Finisterra. 

“É insensato quem não consegue ver, Que é necessário morrer”, lê-se nas esculturas da inquietante personagem. Ele faz questão de lembrar que deixaremos esta vida, e que a probabilidade de nos esperar “o Inferno frio” é elevada. É um papão para adultos, que já comem a sopa de boa vontade, mas a quem é preciso lembrar as más consequências das suas más acções. A perspectiva de irmos parar a um Inferno frio, ainda por cima por motivos bastante discutíveis, fez com que a ideia da vida após a morte se tornasse tão impopular. Entre uma Eternidade no Inferno, e uma vida alegre neste mundo, a escolha tem vindo a recair na segunda hipótese.

O Espiritismo veio ajudar a rectificar essa ideia. Não há castigos eternos, nem juízes implacáveis e injustos. A vida continua, a morte não existe. A nossa felicidade depende de nós. Deus não castiga ninguém! Será pouca coisa, esta revelação?

Mais tarde ou mais cedo todos teremos de enfrentar a Morte. A de um amigo, a de um familiar, a nossa. O que nos ensina o mundo sobre a Morte? Como nos prepara o mundo para a Morte? O Materialismo diz-nos: após esta vida, o Nada. A generalidade das religiões promete a bem-aventurança eterna para alguns, o sofrimento dos infernos para os outros. Perante este panorama, uma terceira opção: esquecer, pensar noutra coisa.

Espero ter sido um Ankou feliz para aquela senhora, que chegou numa manhã de sol e não numa noite de nevoeiro, para lhe anunciar que nunca morrerá…


"Filosofia e Loucura"


 
A verdade seja dita: nenhum de nós era aluno exemplar. Andávamos na escola, sobretudo, porque nenhum era filho de pai rico, e assim sendo, convinha que estudássemos, enquanto alguma vocação não despertava. Havia, para mais, muita coisa que exigia o melhor da nossa atenção. Os filmes de Bruce Lee, por exemplo. Não havia Lavoisier, Gil Vicente ou Carlos Magno que pudessem competir pela nossa atenção como o magnífico Chinês Voador. E podíamos faltar à escola, mas nunca um treino de karate!

Inesperadamente, contudo, foi um grego que conseguiu interessar-nos um bocadinho pelas aulas, que passávamos a desenhar caricaturas, para afugentar o tédio. Um grego e um brasileiro. O grego era Platão, e o brasileiro era o professor que no-lo apresentou. O professor Frederico era brilhante, bem disposto, naturalmente dotado para ensinar, afável e acessível. Platão dispensa apresentações. A sua famosa Alegoria da Caverna deixou-nos fascinados.

- E se for mesmo assim? Se o Universo for bem mais complexo do que os nossos sentidos abarcam? Se a nossa visão do mundo for pouco melhor do que a de uma lapa?

Estes e outros pensamentos Platão e Frederico faziam brotar em nós. Esse primeiro ano de Filosofia levou-nos em aprazíveis viagens pela Grécia Antiga, onde os europeus terão começado a pensar. Visitámos o recato dos claustros, onde Agostinho e Tomás de Aquino ensinavam a sua Escolástica, e rimo-nos com o magister dixit ("o mestre disse", fim de discussão), que era uma excelente maneira de resolver as questões complicadas! Passámos pelos renascentistas, que como nós descobriram os clássicos, e chegámos aos modernos, que se aventuraram na descoberta das magníficas leis da Natureza. Descartes, o primeiro dos modernos, acreditava que se podia provar racionalmente a existência de Deus, criador da consciência e da matéria, as duas faces da realidade.

No segundo ano tivemos um professor de que também muito gostámos. Apesar de fazer coisas um tanto incompreensíveis, como por exemplo levar A Bola para a aula e ler em voz alta a análise especializada do novo ponta-de-lança do Benfica. O facto de este "chutar com os dois pés" fazia o nosso simpático mas um tanto estranho professor rir a bandeiras despregadas, vá-se lá saber porquê…

O nosso segundo ano de Filosofia teve nessas citações de A Bola os momentos mais agradáveis, pois os filósofos que se seguiram não nos eram nada simpáticos. Uns simpatizavam com o nazismo, outros eram contra a democracia, alguns acumulavam as duas características. Estes novos filósofos negavam a estrutura, a ordem e a inteligência que os seus percursores descortinaram no Universo. Negavam Deus, consequentemente.

Proclamavam a inexistência da Moral, no sentido mais nobre da palavra.

Alguns amavam abertamente a crueldade, proclamavam o elitismo e orgulhavam-se da sua insensibilidade em relação ao bem-estar dos mais desfavorecidos. Espíritos torturados, afogados em crises nervosas, em delírios patológicos, sob efeito de drogas, esses filósofos arrefeceram totalmente o nosso gosto pela Filosofia, a ponto de lhe ficarmos com aversão. Uma das coisas que nos aborrecia era a permanente confusão que faziam entre Cristianismo e religiões cristãs, acusando o primeiro de ser o causador de todos os males da Humanidade. Parecia-nos muito injusto, e, em certa ocasião, após a aula, constitui-me porta-voz oficial do Grupo dos Admiradores de Bruce Lee, e perguntei ao professor porque não podíamos estudar a filosofia judaico-cristã. Ele pareceu divertido, como se lhe tivessem falado de um jogador que chuta com os dois pés. Mas não me respondeu.

- Para mim, Jesus é um filósofo brilhante. Parece-me injusto que não o estudemos, quando estudamos a obra destes pobres homens torturados e a contas com severos distúrbios mentais. – atirei com sinceridade, pois os relatos dos padecimentos morais dos filósofos em questão muito nos angustiavam.

Respondeu-me o professor:

- Ora aí está um bom tema: filosofia e loucura! Queres fazer um trabalho acerca disso?

Voltámos às caricaturas. Enquanto cantarolávamos muito baixinho, esperando pelo toque de saída.


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Entretanto descobri o Espiritismo, e filósofos espíritas que partilham da minha admiração pela filosofia de que mais gosto, e que ma deram a conhecer com maior profundidade.

Lamento que aos jovens continuem a ser apontados como expoente máximo do Pensamento, filósofos do desespero e do egoísmo. Já sou crescidinho, agora, e lamento que o sistema de ensino continue a espoliar os jovens do pensamento luminoso de Allan Kardec, Léon Denis ou Herculano Pires. 

Os valores oficiais da nossa Sociedade são os materialistas, e os outros são remetidos para o gueto das crendices sem valor. Há aqui parcialidade. É injusto. É sobretudo injusto para quem é privado de Conhecimento. Diz-se que a nossa sociedade perdeu a noção o Bem e do Mal, para se centrar no egoísmo. Pergunto-me porque será...


Amandine

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Quando pela primeira vez me convidaram para fazer uma palestra espírita, não sabia o que me esperava. Ver as pessoas a chegar, a sala a encher, o nervosismo a aumentar. Confesso que as pernas me tremeram. Outras palestras se seguiram. O nervosismo foi diminuindo e a confiança aumentando. “A boca fala do que está cheio o coração”, e ainda que não sejamos donos de elevados dotes oratórios, o que mais conta é a sinceridade e o desejo de cumprir a nossa tarefa. Um orador espírita é mais um elemento do grupo que se junta para a palestra. Preparou o seu trabalho, cabe-lhe fazer o seu melhor, com serenidade e confiança – assim ouvi dizer a um companheiro mais experiente.

Aceitei entretanto o convite para fazer uma palestra num centro espírita distante do que frequento. A amizade por quem me convidou falou mais alto que a natural apreensão, e lá fui. Os meus amigos espíritas do Norte receberam-me com muito carinho e aquilo que, segundo os hábitos locais é “comer uma coisita leve”, mas que na realidade é um banquete - nunca se fiem nessa gente!

A família dos meus anfitriões, nada familiarizada com o Espiritismo, resolveu ir assistir, pela primeira vez, a uma palestra espírita. Calhou bem, pois o tema era a Revelação: Moisés e o Deus único; Jesus e a vida futura; o Espiritismo, com a sua visão da imortalidade da alma e da importância da fraternidade que deve unir toda a Humanidade.

Falei com gosto, o melhor que sei e posso, e felizmente ninguém adormeceu. Nem a pequena Amandine, sobrinha da minha anfitriã, uma luso-francesinha de cinco anos, que, muito direitinha na cadeira, com os seus lindos olhos pretos muito abertos, tomava muita atenção. Estava à espera que ela se cansasse e fosse brincar, mas não arredou pé! Foi uma bela reunião espírita, numa ampla dependência de uma fábrica, a sala de conferências mais sublime que Deus me deu a graça de pisar. Houve diálogo, convívio simples e alegre.

Os familiares da minha anfitriã gostaram do tema – que bom! Mas a pequenita teve acanhamento de fazer duas perguntas. Já em casa, encorajada pala tia, perguntou-me então, com o seu sotaque tão engraçado: “Como é que os Espíritos se vestem?” e “Como é que os Espíritos escrevem?”. É claro que fiquei encantado com a sagacidade daqueles dez réis de gente… Mas também um bocadinho atrapalhado! Ora vejamos:

O Livro dos Médiuns, Capítulo VIII, Do Laboratório do Mundo Invisível, Vestuário dos Espíritos – recapitulei mentalmente - e lá expliquei o melhor que pude “como é que os Espíritos se vestem”…
 
A mesma coisa para “como é que os Espíritos escrevem”: O Livro dos Médiuns, Capítulo XIII, Da Psicografia. Com a ajuda dos Bons Espíritos lá consegui explicar.
 
Foi o momento alto da minha viagem, mas… que responsabilidade!
 
E lá foi ela, com as suas perguntas respondidas….
 
Se educamos as nossas crianças na Fé, que seja uma fé raciocinada, assente em factos, e que todos – até as crianças – possam questionar. Essa é a fé que fortalece e se fortalece. Não é a fé do “porque sim” e “porque não”. Espiritismo, doutrina de bom-senso.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Humildade...



A imagem que ilustra esta entrada é de uma rotunda, na Holanda, que brinca com o tema da vida inteligente extra-terrestre, sob a forma de uma "pista de aterragem" para "discos voadores". Bem mais criativa que as habituais e duvidosas esculturas em pedra que povoam as rotundas portuguesas, esta obra talvez cumpra uma das funções da Arte, que é a de antecipar. Antes da invenção do microscópio, por exemplo, a Pintura holandesa também se dedicava à representação pormenorizada, exaustiva, dos estames das flores e outros detalhes maravilhosos que escapam aos olhares distraídos...

Diz um jornal de hoje, (ao qual "roubámos" também a imagem acima):

Recomendações da Royal Society - Cientistas dizem que ONU deve coordenar planos para lidar com extraterrestres 

 Há mais de 500 anos, Giordano Bruno foi queimado na fogueira da Inquisição por defender a possibilidade de existência de Vida extra-terrestre.

Carl Sagan
, o famoso astrofísico, criou uma disciplina nova, destinada a pesquisar a Biologia fora do nosso planeta. E impulsionou projectos de contacto com possíveis civilizações do Espaço exterior.

Frank Drake,
outro astrofísico de renome, calculou matematicamente as probabilidades da existência de civilizações da nossa galáxia (a Via Láctea), e chegou a números... astronómicos.

Talvez então a vida inteligente extra-terrestre seja mais que mero objecto de risota, e possa, quiçá, ajudar-nos a nós, terrenos, a sermos um bocadinho mais humildes, no meio da incomensurável imensidão desconhecida que nos cerca.


11.1.2011

Ficção Científica

Tive uma ideia para um filme de ficção científica. Trata-se de um planeta imaginário, em que as pessoas têm uma estranha particularidade: não morrem! Melhor dizendo, quando chega a hora marcada, o corpo deixa de funcionar e morre, mas as pessoas continuam a viver. É uma ideia inovadora e talvez um tanto confusa, mas passo a explicar: quando o corpo morresse, a inteligência, a consciência, o «eu», não acabavam; as pessoas continuavam a viver com um corpo energético, muito diáfano, invisível a olho nu.

 
 
Nessa outra dimensão seriam mais felizes ou menos felizes consoante o seu grau de aperfeiçoamento moral, e consoante tivessem aproveitado melhor ou pior a sua estada no mundo material. Nessa outra dimensão as pessoas poderiam trabalhar, aprender, fazer amigos, ultrapassar dificuldades, divertir-se, criar coisas com a sua inteligência. Mas poderiam escolher sempre entre proceder bem ou mal.

Passado um tempo na outra dimensão, as pessoas voltavam ao seu planeta. E voltavam com um novo corpo - aqui está outra ideia inovadora e confusa. Passo a explicar: quando fosse gerada uma vida, o corpo em formação no ventre materno teria como «morador» um habitante da outra dimensão que estivesse para voltar.

No planeta de que vos falo as pessoas poderiam trabalhar, aprender, fazer amigos, ultrapassar dificuldades, divertir-se, criar coisas com a sua inteligência. Mas poderiam escolher sempre entre proceder bem ou mal. A «lei» desse mundo poderia ser expressa na expressão «como semeares, assim colherás»

As pessoas que morassem nesse planeta alternariam entre dois mundos, o mundo material e a outra dimensão, e viveriam aventuras inacreditáveis, aprendendo sempre a serem melhores, até que um dia pudessem receber o título de «Ajudantes de Deus».

Nesse planeta, a ideia que as pessoas teriam de Deus não seria a de um homem barbudo e irascível, que as obriga a ir a templos fazer rituais, e que as manda para o inferno se ouvirem heavy-metal, fizerem tatuagens ou gostarem de ler o MAD Magazine. Seria um Deus infinitamente justo e bom, indefinível para quem ainda não tivesse alcançado o pico da evolução e ascendido à categoria de Seu ajudante. As pessoas iriam conquistando novos patamares de conhecimento e felicidade à medida que fossem trabalhando para isso.
 
 
9.4.2013

Jorginho


Foi um Inverno de muita água. E de muito vento. Rajadas de sul capazes de atirar um homem adulto ao chão. O trabalho na horta, no pomar e no jardim, foi certificar-me de que não ia tudo pelos ares. Nas noites de chuva, após um banho quente e uma sopa retemperadora, vi passar muitas vezes o corpulento sapo que resolveu domiciliar-se sob uma laje, por debaixo da janela da cozinha. Da espécie sapo-comum, o maroto desloca-se com uma pompa que só visto! Parece um velho tribuno, solene e fleumático. A todo o momento se está à espera de o ver tirar um relógio de bolso, daqueles de corrente de prata. Chamo-lhe o Senhor Simões.

Entretanto, a Primavera lá venceu o braço de ferro com o teimoso Inverno e brindou-nos com dias amenos. O Senhor Simões, que gosta muito da chuva, tornou-se mais discreto. Eu, pelo contrário. Para quem gosta da terra, Abril e Maio são meses de intensa actividade. Até ao por do sol, muitas vezes.

As ervas estão soberbas, altas, coloridas, aromáticas. Os vizinhos, um bocadinho menos. Não é nesta vida que vão entender que nem Salomão se vestiu tão majestosamente quanto elas, as singelas ervas do campo. Do alto dos seus relvados milimetricamente aparados e das suas plantações de exóticas - tudo a exalar e a pingar pesticidas, insecticidas, fungicidas e acaricidas - olham-me com um misto de irritação, desdém e divertimento. Eu, como não como nem bebo veneno da embalagem, também não o ponho na terra e na água que me alimenta. A mim e aos meus comensais, que aproveitam este oásis de terra desintoxicada. Aqui o doido da vizinhança, que teima em não "queimar as ervas ruins", é um maná para eles.

Quando abro uma clareira para fazer uma horta, uma seara ou um canteiro de ornamentais, a passarada põe o guardanapo. Rabiscam umas sementinhas, uns bicharocos, e depois vão à vida deles, de barriga cheia. Mas esta Primavera tem-se destacado um jovem rabirruivo preto, de apetite voraz e atrevimento maior. Comecei a reparar nele e o grandessíssimo atrevido vai de pousar sem cerimónia no cabo da enxada, da forquilha, do ancinho, na pega do regador, em saltitar à minha volta, como um garoto impaciente por mais brincadeira e mais guloseimas.

Noutro dia, ao raiar da aurora, ainda mal tinha pegado na enxada, e aparece o meu amigo, acabado de se levantar da cama. "Olha o Jorginho!" - saiu-me. E ficou o Jorginho. A família, que é céptica das minhas coisas com os animais, as plantas e o Universo (porque não anda por aí ao ar livre como eu), já confirmou que basta eu sair a porta, a descascar pachorrentamente uma maçã, e ele aparece de imediato. É um turbilhão de graça volátil e apressada, cinzento acastanhado, ainda com as penas da cauda muito pouco ruivas. Um rabirruivo, adolescente imberbe, que se fez amigo de um homem já com brancas na cara.

Isto podia ficar tudo entre mim e o Jorginho, em vez de ir parar à Rede Global Mundial Electrónica e se calhar obrigar as pessoas a terem uma "opinião". Os materialistas impenitentes dirão que as minhas apreciações sobre graciosidade rabirruiviana radicam em parâmetros subjectivos e portanto cientificamente irrelevantes. Provavelmente perspassar-lhes-ão as circunvoluções cerebrais os mesmos pensamentos de divertimento mesclado de desprezo que os meus vizinhos experimentam perante a minha recusa em "meter veneno". O passarito é apenas um insignificante incidente neste insignificante incidente que é o Universo, a Vida, o Ser. É um aglomerado fortuito de células que busca nutrientes e se aproxima de mim por reflexo condicionado, como provou o grande Pavlov, tendo para isso supliciado no supremo altar da Ciência um pobre cãozinho inocente - como todos os animais. Taxonomistas da alma humana, se tropeçarem neste recado electrónico, colocá-lo-ão minuciosamente no caixote do lixo que reservam para estes casos incuráveis.

Os mais dados a uma visão espiritualista, talvez vejam no Jorginho um símbolo de renovação e esperança, de perpétua evolução, um princípio espiritual que se ensaia para mais altos voos na esfera do Espírito, e em que desponta já o afecto, a querer ganhar espaço às pulsões essenciais do abrigo, do alimento, da reprodução.

Enquanto digito estas linhas, do lado de fora da janela o meu amigo baloiça-se num caniço, que se dobra todo com o peso dele (a dieta tem sido boa). Está sol. Ele parece divertido. Não tenho nenhuma "interpretação" sobre esta amizade. Reservo-me o direito inalienável de não retirar dela nenhuma moral, nenhuma filosofia, nenhuma ciência. Sob o mesmo sol, respirando a mesma brisa, partilhamos uma bela maçã. Sem veneno. Eu e o Jorginho.
 
 
 
14.5.2014

As minhas três refeições preferidas



Nunca protagonizei nada de épico, não sou propriamente um gourmet e muito menos um escritor. O que me levou a querer partilhar convosco as três refeições de que mais gostei foi o desejo de partilhar as três singelas lições que com elas aprendi.

A primeira tinha eu uns 17 anos, e estava num emprego como pintor da construção civil. Foram tempos muito agradáveis, porque adorei esse trabalho e porque nessa altura conheci uma rapariga loira de sorriso tímido que enchia os meus dias de felicidade. Chegava ao trabalho pela fresquinha, ao som dos passaritos que acordavam cedo, tinha uma pausa para almoço - que me sabia a céu - voltava ao trabalho e lanchava no cimo de um andaime antes de "despegar" e voltar a casa com aquela sensação de plenitude que só o trabalho dá.

Um dia, a rapariga loira lembrou-se de me trazer o lanche, e passou aqueles 15 minutos deliciosos ao meu lado, no andaime, enquanto eu saboreava o pão de leite com queijo e o sumo de pêssego "Frami", daqueles de lata que já não se fabricam. Senti-me escandalosamente feliz e privilegiado, dentro do meu fato-macaco, como nunca me tinha sentido. Tudo exalava perfeição e quase juraria que as flores da erva da fortuna que atapetavam o chão mais abaixo, se agitavam ao compasso da brisa que nos banhava naquela tarde de Verão.

A rapariga loira passou nesse dia a ser minha namorada e é ainda minha mulher. E nunca mais um pão de leite com queijo e um sumo de lata me souberam exactamente assim. Há coisas que são irrepetíveis e temos de estar alerta para as apreciar como deve ser. E não é preciso ser-se um eleito, um afortunado da Terra, para se estar no topo do Mundo. Nem que seja por 15 minutos.
 
 

 
 
A segunda refeição do meu top 3, e por ordem cronológica, foi ainda menos gourmet que a primeira. Mas soube igualmente bem. Foi num domingo de manhã, dia de corridas para mountain bikers inveterados como eu. Escapuli-me ainda de noite, silenciosamente para não acordar ninguém em casa, em direcção a Alcochete e à mais bela corrida em que participei. Muita areia, muito saibro, muita floresta, muitos quilómetros, muita aventura.

Cheguei já em cima da hora, levantei o número para a máquina, e o dorsal para o meu jersey esburacado. Recebi uma garrafa de água e um pãozinho com marmelada, que enfiei distraidamente num dos bolsos que a roupa de ciclismo tem atrás, ao fundo das costas. A corrida foi daquelas que revivemos para o resto da vida. Muita chuva que caíra na véspera, misturada com muito suor e muitas quedas, depressa fizeram dos concorrentes estátuas de cor castanho avermelhada. O terreno escorregadio proporcionava os despistes, mas ninguém se importava muito. Na areia ninguém se magoa.

Após cortar a meta, água não me faltava, ainda que o meu bidon tivesse deixado entrar uma generosa quantidade de areia. Estava capaz de devorar qualquer coisa, após aquelas horas a pedalar, quando verifiquei então que me tinha esquecido de levar comida ou dinheiro. Valeu-me o pãozinho que ainda estava no bolso de trás. Foi a minha refeição, generosamente temperada com a areia molhada e a lama, e acompanhada de água do bidon.
E que bem que me soube!
Saboreei-o pachorrentamente, de olhar perdido nas florestas, sentado ao pé da bicicleta. Merece estar entre as minhas refeições mais principescas.

Ah, a moral da história: é que o apetite é que dá mais sabor à comida. E à vida.
 

Já vai sendo altura de terminar a minha tripla dissertação gastronómica. As anteriores refeições de que vos falei foram uma sandes de queijo com um sumo de lata (a primeira) e uma sandes de queijo com alguma areia, acompanhada de água (a segunda). Desta vez a ementa é ainda mais frugal.

Foi há umas semanas, quando os últimos dias deste Inverno seco e frio ainda teimavam em não querer deixar chegar a Primavera. Eu seguia de moto, num dia de semana, em direcção a casa. Saíra com um bocadinho menos de agasalho do que seria recomendável. Afinal, a deslocação era pequena. Eram apenas 25 quilómetro para cada lado, e era "um instantinho". Por qualquer razão acha-se que se nos demorarmos menos o frio tem contemplações connosco. O frio roía-me as mãos. Ou aguentava mais um bocadinho, chegava a casa e aquecia-me, ou parava para ganhar coragem para o resto da viagem. Parei.

A noite caiu com uma velocidade tropical. Não havia lua nem estrelas. O cheiro distante de folhas de plátano queimadas chegava-me à narinas. Algum melro teimoso ainda fazia aquela algazarra crepuscular tão característica aqui deste bocado de planeta. Entre escuridão, frio e suave cheiro a fumo, pareceu-me ser a única criatura pensante num raio de alguns quilómetros. Aqueci-me ao motor da moto, como se fosse uma fogueira. Bebi água da fonte e roí uma laranja apanhada à beira do caminho. Poucas vezes na vida me senti tão feliz, tão anónimo, entre o ondular do fumo, o canto do melro, o aroma suave das laranjeiras e o girar do Universo que a escuridão ocultava aos olhos.

Na altura não pensei em nada de especial, apenas desfrutei dos instantes de enlevo que o fim de tarde inopinadamente me trouxe. Suponho que me tenham encantado sentir-me tão pequeno e insignificante, cercado do mistério infinito da Vida e do Universo. E ao mesmo tempo afortunado por fazer parte dele. Talvez um dia venha a entender porque me senti tão bem. Para já, tenho a vaga impressão de que é mais ou menos isto que procuro nesta vida. Às vezes, quando menos espero, encontro.
 
 
8.4.2012

Em Viagem

 
 
Fim de tarde fresco, ventoso, nuvens velozes correndo no céu em direcções desencontradas. Um mar de flores silvestres e ervas do campo, ilustres e nobres desconhecidas, dançam um bailado sublime. Como todos estes tesouros que agora me cercam. O peneireiro pára no céu, prodigiosamente descansando sobre massas de ar em turbilhão. Tanto ar. Em movimento.


Uma e outra andorinha voam baixo, descrevendo curvas doces sobre mim. As nuvens agrupam -se para enquadrar mais um pôr-de-sol único e irrepetível, que Deus oferece todos os dias mais ou menos à mesma hora. A cada minuto o céu muda. Além, sob o banco de nuvens de cores sem nome, raios de luz descem até ao mar, como medievais escadas de ouro para o Paraíso. E passa um bando de estorninhos, tremelicando dez vezes por segundo. Não sei se estão contentes com este espectáculo, mas parecem tão felizes como eu, que me aninho no saco-cama e vou bebendo o final da sinfonia divina que a escuridão lentamente, docemente, afaga e extingue.


O peneireiro continua a parar sucessivamente em coordenadas celestes que ele lá saberá. Já esvoaçava assim nos tempos de D. José, nos de D. Afonso Henriques, nos de Viriato. Já conhecia as coordenadas celestes todas quando chegarem os primeiros homens ao planeta Terra, que agora se despede do Sol por mais umas horas.


Na cidade ficaram os outdoors das publicidades do momento, os comboios metroplitanos a expelir e engolir gente, as montanhas de betão, vidro e aço, os executivos engravatados e os trabalhadores cansados, os loucos e os junkies que não aguentaram a pressão a que o ser humano insiste em se condenar. Lá do alto, a cidade é uma mancha na paisagem, que a corujinha evita, preferindo assomar nos altos ramos do carvalho. Boa noite, corujinha.


Há poucas horas que deixei o asfalto e a multidão. O ar cru e verdadeiro nos pulmões, a subir a serra, já me lavou a alma. A bicicleta de montanha repousa ao pé da tenda minúscula, e se falasse certamente diria: "Obrigado, sou uma bicicleta de montanha e é aqui que estou no meu habitat". Agradeço mentalmente a quem a projectou e fabricou. Era concerteza isto que tinha em mente.


Beethoven deve ter sentido coisas assim quando compôs a sua 6ª Sinfonia. Graças aos prodígios da tecnologia posso estar aqui, directamente do meu saco-cama, na minha tenda situada ao pé do carvalho grande, no alto da montanha com vista para a costa, a compartilhar com o planeta inteiro a minha eternamente perplexa admiração e gratidão por Quem projectou e fabricou tudo isto que os meus olhos, os meus ouvidos, o meu olfacto, e todo o meu ser bebem sem se cansarem.


A refeição frugal sabe-me a nozes, madeira, fumo e vida. Em breve as pálpebras vão pesar-me e vou adormecer com o meu cão, que nunca desdenha servir-me de almofada. O meu fiel companheiro parece que percebeu que escrevi sobre ele, porque despertou do sono leve e abriu um daqueles sorrisos caninos que nos enchem o coração. Estou perto de casa. Estou no fim do mundo. Estou perto de casa.
 
 
 
14.7.2011

Resoluções de Ano Novo


AS LISTAS

Antes de começar, permitam-se o aviso prévio de que não sou nenhuma autoridade em Psicologia, auto-ajuda ou coisa do género. Estas linhas são singela partilha de experiências, sem outra pretensão que não a de uma conversa de amigos.

Hoje é Dia de Reis, estamos no início do ano, e muitos de nós estão a tomar as famosas resoluções de Ano Novo. Cada virar de página do calendário anual encerra esperanças de realização pessoal, de paz interior, de saúde, de harmonia, e as listas de intenções são a mais viva expressão dessa vontade de evoluir. O problema é que raramente resultam...

E falo por mim, que não poucas vezes alinhavei na minha lista o «Deixar de fumar», «Perder peso», «Deixar de beber» - este nunca foi um problema, mas o famoso beber socialmente era um hábito de que ambicionava livrar-me.  E quem diz estas, diz outras boas intenções, as tais de que se diz estar o Inferno cheio.

FALHANÇO E SUCESSO

A luta hora a hora contra o desejo de puxar por mais um cigarro, esgotava-me. O espreitar constante da balança, na esperança de um número encorajador, exasperava-me. Numa saída à noite, a cerveja que espreitava, convidativa, tentava-me. E acabava por ceder a todas.

Quando  desisti de vez dessas disciplinas rigorosas que não conseguia cumprir, eliminei um problema da minha vida. E voltei a ter paz de espírito e motivação para actividades saudáveis de que andava um tanto afastado. Correr, escalar, mergulhar, sem a sombra negra dos maus hábitos e da disciplina forçada. E quando dei por mim, estava a aumentar os furos no cinto, o cigarro apetecia-me cada vez menos e trocava de bom grado a cerveja pela água.

E fez-se luz: não é a disciplina que nos faz eliminar os maus hábitos; são os bons hábitos que naturalmente tomam o lugar dos maus. E onde havia disciplina forçada de abstinência disto e daquilo, passou a haver disciplina espontânea para as coisas agradáveis.

APLICAÇÃO

Então, segundo a minha experiência, vale mais seleccionar algumas actividades saudáveis e agradáveis do que enumerar aquelas de que penosamente nos queremos livrar. Se vemos demasiada TV, ao invés de simplesmente anotarmos «Ver menos TV», vale mais apontarmos para «Passear a pé», «Ler», «Aprender a tocar viola», etc..

Tenhamos presente que todos nós temos muito mérito por levar a bom termo as nossas tarefas diárias no trabalho, na família, nos trabalhos domésticos, na Sociedade ainda tão cheia de imperfeições, que são de todos e cada um de nós. Não cedamos, jamais, ao sentimento de culpa. Tentar é que conta, e quem não consegue hoje, conseguirá amanhã, com a ajuda de Deus.

E EM TERMOS ESPIRITUAIS?

Na vida espiritual, passa-se exactamente o mesmo. Não somos seres materiais com um Espírito «dentro». Somos Espíritos temporariamente numa armadura material. A oração espontânea, o pedir, louvar e agradecer, feitos hábito natural do dia-a-dia, são fortificante espiritual tão importante como são para o corpo a alimentação, o exercício, o sol e o repouso.

Estudar Espiritismo (ou a doutrina ou religião de cada um), torna-se um alimento da alma e um prazer diário. E pôr em prática o que se estuda, começa a ser cada vez mais um hábito, uma segunda natureza:

Partilhar, ser grato, perdoar, colaborar, ouvir, amparar, a dada altura são actividades que nos sabem e fazem tão bem como levantar cedo, comer equilibradamente, respirar ar puro, passear a pé.

Um 2013 de saúde física e espiritual é o que vos desejo!


6.1.2013

Telmo



Chama-se Telmo. É já bem mais alto que eu, e tem um abraço de tamanduá. É difícil convencê-lo de que os abraços não têm que ser proporcionais ao carinho que dedica às pessoas. E como o carinho é muito, corre o risco de quebrar as costelas a alguém.
 
Anda sempre a cantar. E como quem canta seus males espanta, os vários problemas de saúde de que padece parecem não lhe baixar a moral.
 
É possivelmente a pessoa mais feliz que conheço. Porque sabe viver. Não dá valor aos contratempos, às dores, às fadigas, aos maçadores que o querem arreliar. Canta, trabalha, diverte-se, toca e canta no grupo de música, anda de bicicleta de montanha às sextas-feiras de manhã, com um capacete amarelo, e cumprimenta-me sempre com entusiasmo. Vê sempre o lado bom das coisas e aproveita a vida nas coisas mais simples (que são as melhores, é sabido).
 
Tem idade mental de 8 anos, metade da idade do bilhete de identidade. O corpo, a organização cerebral, condicionou-o, nesta vida. O Espírito é antigo, como o de todos os habitantes da Terra, e pode ser surpreendentemente mais evoluído que o corpo que traz nesta reencarnação.
Cada um de nós reencarnou no país, na cidade, na família, e com o corpo de que necessita para levar a cabo mais uma bem sucedida jornada terrena. O Telmo parece sabê-lo intuitivamente.
 
 
7.6.13
 
Imagem ilustrativa

Sentimentos de um ocidental

Oito e meia da noite. As ruas começam a ficar desertas. A cidade já despejou a sua população diurna, o trânsito abranda. Alguns comerciantes ainda estão, de porta fechada, a fazer arrumações. Nas churraqueiras viram-se frangos, para os que não tiveram tempo de preparar jantar. É a hora em que as brigadas de limpeza começam a lida, nos escritórios, nas lojas, nos edifícios públicos. Passa por mim um grupo de jovens de estilo "gangsta", nas suas bicicletas BMX, cigarro na boca e garrafas a chocalhar nas mochilas, berrando obscenidades incoerentes. Os graffitti a esta hora parecem fazer mais sentido, demarcando os territórios em código. Vem aí a Noite. A cidade está cansada, como aquela dona de casa que, já trôpega, ainda varre a varanda. E, para ser sincero, a minha habitual e permanente alegria estremece um pouco, sob as rajadas de vento frio deste Outono, que nos apanham de surpresa ao fim de dia de Verão de S. Martinho. Se cerca de 50% dos europeus são manifestamente ateus, e os restantes incluem muitos agnósticos e muitos crentes superficiais, concluo que a grande maioria dos meus concidadãos está demasiado embrenhada nas lutas e paixões do dia-a-dia para ter disposição de procurar saber se existe mais que "isto". E "isto" nem anda famoso. Nunca andou.
Considero-me muito mais imperfeito do que a maioria destas pessoas. E talvez por isso Deus me tenha dado oportunidade de saber - até por experiência própria - que a Vida não se resume a esta passagem pela Terra, ao prosaico casa-trabalho-casa ou às alternativas mais radicais de quem quer mais que "isto", mas vê sempre esse ideal impreciso a fugir. Como a cenoura na ponta do pau, à frente do burro.

Aperto o passo. São quase nove da noite e a palestra do Divaldinho Mattos vai começar. No centro espírita estão pessoas como aquelas com que me cruzei na rua. Não há ninguém em transe, não há cânticos nem gente em convulsão a louvar o Senhor. Há pessoas normais, das mais diversas. Com as qualidades e defeitos das outras, unidas pelo desejo de se melhorarem para melhor servirem o Próximo. Na modesta sub-cave de um prédio, apertadinhos, vamos tomando lugar nos banquinhos de plástico.

O Divaldinho, simpático e modesto como sempre, tomou a palavra, e durante uma hora levou-nos em visita guiada ao mundo espiritual. Aos primeiros golpes das sua boa disposição, o vago sentimento de um ocidental que me espreitara na rua, dissolve-se em pétalas de luz. O mundo de provas e de expiações pode esperar. A viagem decorre agora em dois mundos, e as ângulos soturnos deste têm explicação no outro. Os Espíritos disseram que este nosso mundo é cópia imperfeita do mundo espiritual. E Jesus disse que há muitas moradas na casa de seu Pai. O Divaldinho conta a história da reencarnação de Segismundo, segundo a obra "Missionários da Luz", de Chico Xavier, pelo Espírito André Luiz. A morada espiritual é a colónia "Nosso Lar", que o mundo agora pode idealizar a partir do filme homónimo.

Divaldinho conta a história singela, e comenta a profundidade moral dos relatos. Chama a atenção para que nos anos de 1940 estas obras anteciparam tecnologias como os computadores pessoais ou os discos de DVD - o mundo material vai copiando o mundo espiritual. Mas adverte que não é a partir dos romances mediúnicos que alguém vai aprender Espiritismo. E cita Chico Xavier, seu amigo, que aconselhava a que se estudassem as 5 obras básicas dos Espíritos, codificadas por Allan Kardec. Durante 10, 20, 30, 40 anos, toda a vida. Chico desencarnou deitado na sua cama, a estudar O Livro dos Espíritos. Aprender sempre...
Chico dizia que a leitura das 5 obras básicas, se muda uma pessoa, pode mudar o mundo. O nosso mundo ainda tão desconhecedor das realidades maiores.


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Divaldo Matos de Oliveira, conhecido como Divaldinho Mattos, é um divulgador espírita brasileiro, idealizador e fundador de várias instituições em Votuporanga, no interior do Estado de São Paulo.
Dirige o Grupo Espírita Maria de Nazaré desde 1982 e os seus departamentos:

Centro Espírita Paulo de Tarso;
Centro Espírita Fé Amor e Caridade;
Centro Espírita Iracema Laço Veronezzi;
Núcleo Assistencial Espírita Auta de Souza;
Comunidade Espírita Joanna de Angelis;
Lar Beneficente Celina e a
Casa Editora Espírita Pierre-Paul Didier.

No Lar Beneficente Celina, colaboram mais de 200 voluntários espíritas. Cuidados médicos, escolarização, alimentação, são proporcionados à população carenciada de Votuporanga, Estado de São Paulo, Brasil.

Como esta obra, há muitas outras obras espíritas. Ouve-se pouco falar delas, porque os espíritas não têm por hábito alardear o bem que fazem. Citamo-lo nesta oportunidade para lembrar que estas iniciativas erigem na Terra comunidades onde o amor ao próximo é a Lei, tal como em "Nosso Lar", que foi tema da palestra.

PS - Cesário Verde - O Sentimento de um Ocidental. Uma alma que aspirava a mais que "isto".
19.10.10

Oportunidade Perdida

 
 
E se a morte não fosse o fim de tudo? E se em vez do Nada dos ateus; ou do Céu de eterno aborrecimento dos religiosos, o Além-túmulo fosse pulsante de Vida, ainda mais refinada e complexa que a vida na Terra? E se o Além fosse a continuação lógica deste mundo, onde vivemos tantos dramas, tantas alegrias, tantas lições?...

 
As boas notícias são, como sabemos, que a Vida continua. Desde há mais de um século que pessoas tão sérias como Charles Richet (Nobel da Medicina), consideram fora de dúvida que assim é. As más notícias são que a Humanidade não parece sensibilizada para o assunto. Após séculos e séculos de imposições religiosas absurdas, o hedonismo proclamado pelas filosofias materialistas clama a satisfação dos apetites grosseiros, aqui e agora.
 
Como genialmente intuído pelo Príncipe Siddhartha Gautama, mais conhecido como Buda, este estado de consciência em que a Humanidade terrena ainda estaciona, assemelha-se a alguém que quanto mais bebe mais sede tem.

Apedrejado como tudo o que é novo, apesar de entroncar no que é antigo, o Espiritismo veio cometer o crime hediondo de matar a Morte; de secar as lágrimas aos que choram sobre as cinzas dos entes queridos que julgavam desaparecidos para sempre; de conduzir os homens para Deus segundo as pisadas do Cristo de Deus.

O Espiritismo, ou Doutrina dos Espíritos, está contido nas 5 obras básicas, compiladas pelo incansável e abnegado Allan Kardec:

O Livro dos Espíritos
O Livro dos Médiuns
O Evangelho Segundo o Espiritismo
O Céu e o Inferno
A Génese

Mas, assim como antes da Codificação Espírita os Espíritos se comunicavam, após esta eles continuam a comunicar-se. E continuam a explicar com palavras e imagens que nos sejam acessíveis, realidades que desconhecemos no nosso estado actual de encarnados, ou seja, temporariamente unidos a um corpo de carne, a um corpo material.
André Luíz é um dos Espíritos que descreveu de modo acessível para nós, alguns aspectos do mundo espiritual, de que o nosso é pálida cópia. A série André Luíz, psicografada pelo médium e espírita brasileiro Francisco Cândido Xavier tem em "Nosso Lar" o seu best-seller indiscutível. Alguns dos que acham a leitura da Codificação Espírita mais difícil de ler, deleitam-se com as descrições de "Nosso Lar", que tem sabor de novela, comove e dá esperança.

E foi assim que o filme "Nosso Lar", em duas semanas, levou às salas de Cinema de todo o Brasil mais de 2 milhões de espectadores. Espíritas e não espíritas, indiferentes à jactância intelectual dos donos da verdade ateus; e ao primitivismo dos donos da verdade religiosos, que vêem o diabo em tudo o que não entendem ou que fuja aos estreitos parâmetros do que lhes dá segurança.

Por cá por Portugal, não falta quem pergunte: "Quando estreia?". Em vão temos escrito às distribuidoras nacionais. Nem uma resposta. Esperamos que a SIC ou a TVI tenham a feliz ideia de oferecer essa presente aos tele espectadores.

Desde que soube deste filme que me tenho perguntado como seria recebido no centro incontestado do Cinema mundial, os Estados Unidos. Por lá gostam de aliar qualidade a audiências, e o elitismo que incensa filmes intragáveis e absurdos não tem grande aceitação.

Vou ser mais claro: eu esperava que "Nosso Lar" fosse a concurso aos Óscares, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas o Ministério da Cultura do Brasil acaba de me gorar esse sonho. Esteve a votação no site do Ministério o filme a levar a concurso. Muito bonito, muito democrático...

"Nosso Lar" venceu destacado, com 70% dos votos. A obra que o Brasil vai enviar será uma que teve 1% dos votos: "Lula, o Filho do Brasil"!



- Confira:

• Nosso Lar
(70,0%, 88.894 Votos)

• Chico Xavier
(12,0%, 14.881 Votos)
• Os Famosos e os Duendes da Morte
(8,0%, 10.437 Votos)
• O Grão
(2,0%, 2.431 Votos)
• Antes que o mundo acabe
(2,0%, 2.035 Votos)
• Lula, o Filho do Brasil
(1,0%, 1.646 Votos)
• Cinco Vezes Favela, Agora Por Nós Mesmos
(1,0%, 1.227 Votos)
• As Melhores Coisas do Mundo
(1,0%, 1.147 Votos)
• Utopia e Barbárie
(1,0%, 843 Votos)
• Carregadoras de Sonhos
(1,0%, 659 Votos)
• O Bem Amado
(0,0%, 582 Votos)
• Reflexões de um Liquidificador
(0,0%, 520 Votos)
• Em Teu Nome
(0,0%, 448 Votos)
• É Proibido Fumar
(0,0%, 423 Votos)
• Bróder
(0,0%, 375 Votos)
• Quincas Berro D’água
(0,0%, 350 Votos)
• A Suprema Felicidade
(0,0%, 202 Votos)
• Olhos Azuis
(0,0%, 182 Votos)
• Sonhos Roubados
(0,0%, 163 Votos)
• Hotel Atlântico
(0,0%, 70 Votos)
• Os Inquilinos
(0,0%, 62 Votos)
• Cabeça a Prémio
(0,0%, 56 Votos)
• Ouro Negro
(0,0%, 54 Votos)
 
 
26.9.2010

Sobre as Nossas Cabeças...



O dia escolhido foi Domingo, 25 de Outubro. O local foi o Centro de Cultura Espírita, em Caldas da Rainha. De Lisboa, vieram o Carlos Ferreira e o Antero Ricardo, do Centro Espírita Perdão e Caridade, para apresentarem o seminário “Pluralidade dos Mundos Habitados - Descobre o Teu Universo!”. Os participantes vieram de vários locais, tendo havido os que se afoitaram a vir de Viseu e de Portimão.

Dos pilares da filosofia espírita (Deus, imortalidade da alma, comunicabilidade dos Espíritos, reencarnação e pluralidade dos mundos habitados), não erraremos muito se dissermos que o último é o de que habitualmente menos se fala. A carga de trabalhos com que nos deparamos aqui na Terra já é de tal monta, que poucas vezes olhamos para os céus que se estendem por sobre as nossas cabeças. O estudo do Universo afigura-se-nos, ainda por cima, disciplina demasiado árida e técnica, só ao alcance de especialistas. Eis porque a pluralidade dos mundos habitados é parente pobre nos estudos espíritas. E, no entanto, quantas maravilhas esse estudo encerra… Se nos maravilhamos com a obra de Deus que os nossos olhos abarcam, a obra que os potentes telescópios desvendam não é menos admirável. Foi isso que o Carlos e o Antero vieram demonstrar, com paixão e mestria.

Saberão os nossos leitores qual a dimensão do nosso Sol, comparado com a do nosso pequeno planeta? É a de uma bola de futebol para uma esfera de 2 milímetros de diâmetro. As distâncias, ao nível do sistema solar, são já difíceis de entender: o planeta Mercúrio, o mais próximo do Sol, está a “apenas” 57,9 milhões de quilómetros. E o nosso sistema solar é um grão de areia na enorme praia da nossa galáxia, a Via Láctea, que tem cerca de 200 biliões de estrelas! O nosso sistema solar é um pequenino bairro da periferia da nossa galáxia. À velocidade da luz, demorar-se-ia 100 mil anos a atravessar esta gigantesca “cidade”! E os astrónomos calculam em 125 biliões o número de galáxias existentes!

Quando a Humanidade terrena começou a tomar consciência desta esmagadora realidade envolvente, o Universo pareceu um incomensurável deserto estéril. Um vento glacial no Vazio. A ideia de um Deus e de um Paraíso localizados acima das nuvens foi destronada e semeou em muitos a descrença.

Deus parece, à primeira vista, incompatível com as descobertas científicas, e com a Astronomia em particular. Para os Espíritos (e para os espíritas), antes pelo contrário! Um big-bang, gases que se condensam e forma os corpos celestes e tudo o que neles há de material, um cosmos cheio de corpos celestes e mil segredos ainda por descobrir, um Universo infinitamente grande e em expansão, a possibilidade dos universos paralelos, as dimensões de eternidade, em que tempo e espaço se confundem, todo esse gigantesco campo de estudo, é para a nossa filosofia muito mais consentâneo com a glória e sabedoria divinas!

Como parece mesquinha, quando se tem uma pálida ideia do Universo, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno, a concepção de um Deus pairando acima do nosso minúsculo planeta, vigiando, cioso, a Humanidade terrena… Como nos parece pretenciosa a ideia de todas estas maravilhas terem sido criadas para que as possamos eventualmente mirar à noite – se as luzes da cidade não no-las taparem…

Eis porque ainda tantas religiões voltam costas às descobertas da Astronomia, que
Apontam para que pode existir uma infinidade de mundos habitados nas mesmas condições que a Terra!

Há 152 anos, em O Livro dos Espíritos, revelação do mundo espiritual compilada e comentada por Allan Kardec, já se defendia o que a Ciência actual afirma e comprova sobre o Universo. Há indícios de vida fora da nossa esfera. De vida inteligente, esperaremos para ver. O Espiritismo afirma a existência de vida biológica e espiritual em todo o Universo. Não encontramos razão para este minúsculo grão de areia que é nossa querida Terra, ter sido o único mundo que Deus premiou com Vida. E cremos que estas deduções são ainda o início do entendimento da Criação. Quando se estuda, toma-se consciência da própria ignorância. Foi isso que fizemos neste seminário.

23.12.2009

Divulgar o Espiritismo


O Espiritismo em Portugal esteve proibido durante o regime do Estado Novo. Apesar de ser independente de regimes e ideologias políticas, era considerado subversivo, quer em Portugal, quer em Espanha, cujo regime era igualmente totalitário. As associações espíritas foram mandadas encerrar, os seus bens foram apreendidos, as suas publicações interditadas. E assim, um movimento florescente e dinâmico foi reduzido ao silêncio. Durante o período de proibição, os espíritas reuniam-se em segredo, e muita gente que de bom grado se teria aproximado da doutrina, afastava-se, com medo das represálias da polícia política. Os grupos espíritas, impedidos de intercambiar ideias normalmente, foram estagnando. A imagem do Espiritismo ficou seriamente comprometida, pois o que é proibido é sempre estigmatizado.

Os hábitos instalados são difíceis de eliminar, e o hábito de estar “escondido” tem persistido, mesmo já em Democracia. Ante a ideia de se divulgar abertamente, de se sair do centro espírita, há ainda apreensões. O Espírito Emmanuel, pela psicografia do médium Chico Xavier, lembra-nos que a divulgação da doutrina espírita é uma forma sublime de caridade. E não é justo que os espíritas, a pretexto do receio de serem mal aceites, vão guardando só para si a Doutrina dos Espíritos. Os jornais, a rádio, a tv, a Internet, as conferências públicas fora do espaço das associações, não são motivo de vaidade nem de vergonha. São trabalho espírita, singelo e abnegado.

É sabido que os espíritas, não sendo profissionais e dedicando-se ao estudo e prática do Espiritismo nas horas vagas e gratuitamente, não dispõem de capacidade económica nem de disponibilidade para “competir” nos meios de comunicação social pela atenção do público. Mas a questão não é de marketing, muito menos é vocação do Espiritismo conquistar adeptos. É tão só de divulgação de uma mensagem, que chegará aos interessados, desde que correctamente transmitida.
Divulgar correctamente o Espiritismo, é, antes de mais, fazê-lo com competência doutrinária. Estudar Espiritismo, estudar sobretudo as obras básicas, é preciso. Não basta boa vontade. Depois, é necessário falar para se ser entendido. De pouco serve tomar a tribuna para falar com muita erudição, se não se é entendido. No trabalho de divulgação, um orador espírita, um articulista, um comunicador, em suma, deve falar de preferência para os que menos ou nada sabem do assunto. Os mais entendidos têm possibilidades de colher informação mais especializada.

A tribuna espírita não deve ser confundida com um altar, onde se fala, mas não se ouve. Divulgar o Espiritismo deve ser falar e ouvir.

A imortalidade da alma, as experiências de cunho mediúnico, que quase toda a gente já viveu ou de que tem conhecimento, as interrogações sobre a vida, são comuns a todas as pessoas. Ateus e religiosos, cépticos e crentes, curiosos e indiferentes, surpreendem-nos amiúde com manifestações de genuíno interesse pelo Espiritismo, referindo que por si nunca entrariam num centro espírita, por terem uma imagem pouco favorável desta filosofia. Através de um meio de comunicação e de uma divulgação escorreita, ficaram agradavelmente surpreendidos e com uma ideia correcta acerca do Espiritismo.

Será então culpa de quem, se o Espiritismo é mal aceite e mal entendido?

A conduta caridosa e a boa convivência entre espíritas, são, sem dúvida o cartão de visita por excelência, e a divulgação, através dos meios de comunicação, é um dever. O solitário, o doente, o candidato a suicida, o obsidiado, o que é torturado pela dúvida, o que sofre amargamente com a partida de quem amava, o que é feliz mas que pode e quer saber mais, merecem que se saia das associações espíritas.
17.12.2009

Os Palermas e os Protestantes



Quando eu era pequeno, a liberdade não era propriamente o forte de Portugal. Liberdade de opinião, liberdade de crença, liberdade de expressão, todas as liberdades eram vistas com muita desconfiança. No campo religioso, eram reprimidas todas as manifestações que não fossem o Catolicismo. Vigorava a Concordata, um acordo assinado entre a Santa Sé e o Estado Português, que atribuía privilégios à Igreja de Roma. A polícia política Salazarista (a P.I.D.E.), reprimia severamente as outras religiões ou filosofias. Algumas mais que outras, como foi o caso do Espiritismo, que entrou na clandestinidade quase completa.

Um pouco menos perseguidos eram os protestantes. No entanto, a ignorância e a apurada vigilância social, só por si, chegavam para os manter num clima de cautelosa discrição.

Havia na minha rua uma igreja protestante. Há que dizer que na minha óptica de então, não se tratava de uma igreja ou sequer de um local de culto. Nos acanhados conceitos de um garoto da Escola Primária, vivendo num regime e numa sociedade autoritários e fechados, aquele rés-do-chão era um local inexplicável, onde senhores e senhoras se reuniam para cantar em conjunto e para discursarem, à vez, de um púlpito. Ouvia-os e via-os da minha janela.

- O que fazem aquelas pessoas? - perguntei aos adultos da casa.

- Não são assuntos para a tua idade! - a resposta clássica que a geração que me criou tinha para todas as perguntas que fossem além da nossa rua, ou, nesta caso, nem isso...

A negativa só aguçou a curiosidade. Entre os amigos da escola descobri que se tratava dos "protestantes". E que fazem os protestantes? Naturalmente... "protestam"!
A resposta fazia todos o sentido. Protestam! Mas contra quê? Naturalmente, se se reúnem com Bíblias na mão, falam de Deus e cantam, só podem estar a protestar... contra Deus!

Na Catequese Católica ensinavam-nos que Deus estava no Céu e em toda a parte, mas especialmente dentro do sacrário, uma casinha situada no centro óptico do altar-mor. Não nos passava pela cabeça que Deus pudesse de alguma forma estar também naquele modesto rés-do-chão, onde não havia sacerdotes paramentados, altares, imagens, velas ou crucifixos.

Quais valentes cruzados, indignados e ofendidos pelos "inimigos de Deus", que se atreviam a "protestar" contra Ele, jurávamos fidelidade à única religião que conhecíamos e declaravamo-nos prontos para tudo em sua defesa. É que não era só uma questão de não conhecermos mais religiões. O nosso catecismo declarava peremptoriamente que só existiam cristãos (os "bons"), e pagãos (os "maus"). Eram pois os "maus" que ansiávamos erradicar. Ainda por cima eram gente “estranha”. Muitos deles eram ingleses, veja-se só!

Um belo dia vimos passar um cortejo de automóveis pretos, antigos, que muito nos intrigou. Um deles parou, e dele saiu uma simpática velhinha, de touca, à moda dos filmes americanos. Parecia mesmo a dona do Piu-Piu, o passarinhos dos desenhos animados. Se trouxesse na mão uma tarte de maçã, não nos teria espantado. Dirigiu-se a nós, e com um grande sorriso, perguntou:

- Os meninos podem dizer-me, por favor, onde é o teatro onde há hoje o congresso dos Protestantes?

Ficámos desconcertados! Então os inimigos de Deus tinham tão bom aspecto, eram tão simpáticos?... Murmurámos uma resposta entre dentes, e o mistério adensou-se ainda mais.

Nessa mesma semana descobrimos que o pátio onde jogávamos à bola dava para as traseiras da igreja protestante. Colámos o nariz ao postigo para ver de perto o estranho lugar. Estava escuro, mas conseguíamos divisar bancos corridos e armários, o chão de madeira bem encerado, tudo simples, quase pobre, mas impecavelmente limpo e arrumado. Um de nós teve a ideia de meter a mão à maçaneta da porta. Estava aberta. Não hesitámos muito. O lugar infundia algum respeito, mas a nossa ânsia de descobrir o que andariam os perigosos hereges a tramar, era maior. Na semi-obscuridade, cautelosos, percorremos o templo. Não sabíamos o que procurávamos, mas os livros, dentro dos armários, dariam a resposta. Deitámos mão a um. Era um livro de cânticos. Percorremos-lhe as páginas, desejosos de encontrar material incriminatório. Em vez disso, eram versos. Bem bonitos, por sinal. Parámos numa página com um cântico dedicado às crianças. Entreolhámo-nos e abandonámos o local, sem sabermos se era maior a vergonha de termos profanado um templo, ou o embaraço de sermos uns palermas.

Já mais crescidinhos, aprendemos que os Protestantes se chamam assim porque se opuseram a certos abusos clericais. E que a designação de Protestante que essas Igrejas ostentam, é afinal positiva. E que os protestantes são pessoas de Bem, que não fazem mal a ninguém – bem pelo contrário.
 

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Noutro dia soube que um determinado grupo religioso se juntou à frente do centro espírita que frequento, e que esteve por lá a fazer umas rezas, supostamente para espantar o “Satanás”. Não estava ninguém no centro para os convidar a entrar, infelizmente.
 
Estão tão equivocados a nosso respeito, esses bem intencionados irmãos, como eu e os meus jovens amigos estávamos equivocados a respeito dos protestantes. Mas não pude deixar de sorrir. Não serei tão simpático como a dona do Piu-Piu, mas já tenho um ou outro cabelo branco.

7.7.2010


Materializações de Espíritos


Um amigo manifestou-me o desejo de assistir a uma palestra no centro espírita. O tema versava as manifestações tangíveis de Espíritos, e, tratando-se de uma pessoa nada familiarizada com o assunto, confesso que não achei que fosse a palestra ideal. Ver Espíritos, ouvi-los, testemunhar manifestações físicas destes, é sempre algo que assusta quem desconhece que existe um mundo invisível para nós, habitantes da matéria densa. Os materialistas buscam causas rebuscadas e mais complexas que a existência do mundo espiritual. Os que se apegam ao simbolismo dos dogmas religiosos, ficam inquietos perante algo que contraria o conceito que têm do Além.

Em ambos os casos, tais fenómenos costumam cair no conceito de sobrenatural - do que não tem causas naturais. Para o Espiritismo, contudo, não existem fenómenos sobrenaturais. A Criação é obra de Deus. Como tal é perfeita e não carece de alterações das suas leis. Também os eclipses, as trovoadas ou os sismos eram considerados fenómenos sobrenaturais antes de se conhecer a sua explicação. Provocavam medo e interpretações supersticiosas que agora nos fazem sorrir.

Após a palestra, o meu amigo quebrou o silêncio pensativo a que se remetera:

“ - Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém. Quando era pequeno fui dormir a casa da minha avó. Estava deitado e senti que alguém se aproximava. Não via ninguém, mas via a impressão dos pés no tapete, e ouvia distintamente os passos. O visitante invisível sentou-se na cama e formou-se uma depressão no colchão, senti-lhe a respiração e a presença. Tive medo e fiquei muito impressionado. Até hoje.”

Estava aliviado, pois obtivera explicação para algo que não compreendia, e que por isso o inquietava.

É raro encontrar-se alguém que não tenha testemunhado casos semelhantes, quaisquer que sejam as suas convicções pessoais. O receio da reprovação alheia leva a que se opte pelo silêncio.

Os que obstam que é impossível aos Espíritos interagirem com os encarnados, que atentem nos testemunhos idóneos e nos estudos científicos de pesquisadores sérios.

Os que obstam que não é moralmente correcto o contacto com os Espíritos, que atentem em que eles ocorrem mesmo sem que os encarnados os desejem. E ocorrem desde os alvores da Humanidade.

Neste nosso mundo material, as pessoas bondosas comprazem-se no Bem. As pessoas menos boas fazem o contrário. Passando para o lado de lá da vida, o panorama não se altera. As manifestações e comunicações dos Espíritos são manifestações de gente como nós, que deixou o corpo carnal mas conserva a boa ou má índole.

Não são demónios, os Espíritos que provocam distúrbios ou dão comunicações indignas. São Espíritos ainda atrasados. Tão pouco são anjos os Espíritos que se comprazem no Bem, mas sim irmãos nossos que já lograram um estado evolutivo superior.

Jesus, no episódio bíblico da Transfiguração (Mateus, 17:1-13 Marcos, 9:2-13 Lucas, 9:28-36), conversa com Moisés e Elias, no alto do Monte Tabor. Simão Pedro, Tiago e João assistem, assustados e maravilhados. A figura de Jesus resplandece, e a mesma luz celestial rodeia as outras duas ilustres figuras. Moisés vivera há 1250 anos, Elias há 800 anos. Jesus, nosso muito amado Mestre, irmão e amigo, falou com os Espíritos.

O Espiritismo abre as portas à compreensão dos fenómenos mediúnicos. O Espiritismo retoma a prática mediúnica dos primeiros cristãos, exclusivamente com propósitos de pesquisa científica a bem do esclarecimento geral, auxílio fraterno a encarnados e desencarnados, e instrução moral.

Para quem estuda Espiritismo, tudo isto é ponto assente, mas a maior parte das pessoas, tal como este meu amigo, têm ideias pouco claras acerca do assunto. Daí que a palestra lhe tenha sido tão proveitosa e agradável.

16.12.2009



"A Bíblia é a minha arma!"

Éramos meia dúzia de rapazotes, compartilhando a paixão por Bruce Lee, pelos Led Zeppelin, e por motos japonesas. Os nossos maiores pecadilhos eram uma ginginha furtiva na taberna da esquina e umas valentes jogatanas de cartas, a tostão, "para dar interesse".
O Jorge era o mais aperriado de todos, nessa época em que éramos todos bastante aperriados. Era uma guerra até para usarmos o cabelo comprido, à Robert Plant e à Bruce Lee.

O comprimento do cabelo era letra de samba, naquela época...

Felizmente que o Roberto Carlos deu a volta à coisa:

O Jorge usava o cabelo curtinho e de risco ao lado. Pelos vistos havia qualquer coisa na Bíblia que proibia o cabelo comprido. A mãe do Jorge era uma evangélica ferrenha, que substituíra a capacidade de pensar por um exemplar da Bíblia que trazia sempre consigo, e que constituía praticamente todo o seu vocabulário, feito de capítulos e versículos, espadas de fogo e anjos vingadores...
Cabelo, indumentária, adornos, maquilhagens das irmãs do Jorge eram passadas pelo passador bíblico e resultavam em quatro raparigas tiradas a papel químico, tristes e encolhidas, sempre com medo da espada justiceira de sua mãe, representante de Deus na Terra, com procuração passada no notário evangélico. Pareciam quacres em versão infeliz, e só deixaram de parecer quando se emanciparam e ganharam cor, nas faces, na roupa e na alma.

Certa tarde de sábado, jogávamos uma partida de cartas na garagem do Toninho, docemente embalados pelo pequeno leitor de cassetes, gozando a nossa mocidade, quando, abrindo o portão sem autorização, o Anjo do Senhor irrompe, de faces vermelhas, espumando indignação e ira em nome de Jesus!

Atónitos, assistimos ao arraial de pancadaria que desfigurou a cara do nosso amigo, que cometera o abominável pecado do jogo da lerpa a tostão! Para o livrar das chamas do Inferno, sua mãe aplicava-lhe um correctivo de fazer inveja ao Bruce Lee, acompanhado de uivos lancinantes de fazer inveja aos Led Zeppelin.

Concluído o acto de profundo amor materno, agarrou-o por uma orelha, a pingar sangue, e virou costas. Passou o portão, mas achou por bem voltar atrás e erguer O LIVRO na mão direita, enquanto a esquerda segurava a orelha do Jorge. E contra luz do sol da tarde que nos cegava, a mulher de um só livro proferiu:
- A Bíblia é a minha arma!
Ficámos ainda muito tempo mudos e assombrados, enquanto o velho gravador regurgitava Whole Lotta Love.
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Noutro dia, pela enésima vez, a Senhora Mãe do Jorge bateu-me à porta. E pela enésima vez me tentou converter. Felizmente que não sou filho, ou lá seria salvo dos infernos à bofetada.

- Desculpe, D. Ana, mas como já lhe disse várias vezes, já conheço a vossa religião, mas eu sou espírita.

- Hã? - interrogou a D. Ana, sem saber se ouviu bem.

- Sou espírita - repeti - a minha filosofia é a filosofia espírita.
- Ah, mas ISTO não é filosofia - e levantou a Bíblia, teatral, de olhos em alvo, como naquele triste dia - ISTO é A VERDADE!
E foi-se embora, mulher de um livro só.


6.9.2009