sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Perseguição

Pensar que há cerca de 1 século os nossos políticos e "opinion makers" eram pessoas do quilate de Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, o Rei D. Carlos, Ramalho Ortigão, Bordalo Pinheiro, e tantos outros, que dispensam apresentações... Às vezes em quadrantes opostos do espectro político e ideológico, tinham qualidades intelectuais e humanas incontestáveis.

Com a implantação do regime republicano, houve perseguições religiosas sangrentas em Portugal, que não pouparam crentes de qualquer credo. Eram perseguidos católicos, maioritários em Portugal, como eram perseguidos espíritas. Fernando de Lacerda, médium e espírita pioneiro entre nós, foi impedido de regressar a Portugal, e acabou os seus dias no Brasil graças à carinhosa hospitalidade dos nossos irmãos espíritas brasileiros.

Passado o período em que as turbas enfurecidas incendiavam igrejas e percorriam as ruas à procura de crentes para executar, foi reestabelecida a normalidade. A Doutrina Espírita conheceu, no início do século, em Portugal, um período de grande vigor. Na nossa série "Da História do Espiritismo em Portugal" podemos ter uma ideia do dinamismo do movimento espírita português, que viria a ser quebrado pela proibição do regime de António de Oliveira Salazar, por influência do Ministro que então representava os interesses da Santa Sé em Portugal.

Viveu-se então o período da perseguição aos espíritas, que, tal como os profitentes de outras orientações filosóficas e religiosas, foram duramente castigados pelo regime totalitário que impunha uma religião oficial do Estado.

Não é próprio da filosofia espírita exaltar títulos académicos ou posições sociais. No entanto, é de notar que nos corpos sociais da nascente Federação Espírita Portuguesa, como nas equipas redactoriais das muitas publicações espíritas do "período de ouro" do Espiritismo português, pontificavam pessoas cujas qualidades humanas, intelectuais e morais se impunham na sociedade de então. Investigadores científicos das mais conceituadas universidades portuguesas, magistrados, diplomatas, militares de renome, escritores de prestígio, integravam o movimento nascente, e só com muito má vontade alguém pode supor que tais pessoas se deixassem seduzir por qualquer paródia oca de mesas de pé de galo ou de "moradas abertas".


Na imagem: Amélia Cardia, formada em Medicina, foi a primeira mulher a defender tese inaugural, em 1851. Foi uma dinâmica trabalhadora espírita.

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