sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Perseguição - 1

Pensar que há cerca de 1 século os nossos políticos e "opinion makers" eram pessoas do quilate de Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, o Rei D. Carlos, Ramalho Ortigão, Bordalo Pinheiro, e tantos outros, que dispensam apresentações... Às vezes em quadrantes opostos do espectro político e ideológico, tinham qualidades intelectuais e humanas incontestáveis.

Com a implantação do regime republicano, houve perseguições religiosas sangrentas em Portugal, que não pouparam crentes de qualquer credo. Eram perseguidos católicos, maioritários em Portugal, como eram perseguidos espíritas. Fernando de Lacerda, médium e espírita pioneiro entre nós, foi impedido de regressar a Portugal, e acabou os seus dias no Brasil graças à carinhosa hospitalidade dos nossos irmãos espíritas brasileiros.

Passado o período em que as turbas enfurecidas incendiavam igrejas e percorriam as ruas à procura de crentes para executar, foi reestabelecida a normalidade. A Doutrina Espírita conheceu, no início do século, em Portugal, um período de grande vigor. Na nossa série "Da História do Espiritismo em Portugal" podemos ter uma ideia do dinamismo do movimento espírita português, que viria a ser quebrado pela proibição do regime de António de Oliveira Salazar, por influência do Ministro que então representava os interesses da Santa Sé em Portugal.

Viveu-se então o período da perseguição aos espíritas, que, tal como os profitentes de outras orientações filosóficas e religiosas, foram duramente castigados pelo regime totalitário que impunha uma religião oficial do Estado.

Não é próprio da filosofia espírita exaltar títulos académicos ou posições sociais. No entanto, é de notar que nos corpos sociais da nascente Federação Espírita Portuguesa, como nas equipas redactoriais das muitas publicações espíritas do "período de ouro" do Espiritismo português, pontificavam pessoas cujas qualidades humanas, intelectuais e morais se impunham na sociedade de então. Investigadores científicos das mais conceituadas universidades portuguesas, magistrados, diplomatas, militares de renome, escritores de prestígio, integravam o movimento nascente, e só com muito má vontade alguém pode supor que tais pessoas se deixassem seduzir por qualquer paródia oca de mesas de pé de galo ou de "moradas abertas".


Na imagem: Amélia Cardia, formada em Medicina, foi a primeira mulher a defender tese inaugural, em 1851. Foi uma dinâmica trabalhadora espírita.

Divulgando o Espiritismo


Aspecto do 2º Congresso Espírita Mundial.

No périplo de Fracisco Thiesen, Presidente da Federação Espírita Brasileira, por Portugal, a que fizemos referência no post anterior desta série, ocorreu um episódio engraçado, quando, em conferência proferida no Auditório da Biblioteca Nacional de Lisboa, um jornalista da Imprensa nacional, perguntou "se esse senhor Allan Kardec já tinha falecido há muito tempo".

De então para cá, não se pode dizer que a situação de desconhecimento da sociedade portuguesa em relação ao Espiritismo seja exactamente a mesma. No entanto, subsiste ainda muita incompreensão, que por vezes gera má vontade.

Não foi há muitos anos, por exemplo, que causou alarme entre a vizinhança a colocação de um recipiente destinado a receber pilhas usadas, à porta de uma associação espírita. Possivelmente ainda convencidos que o Espiritismo consiste em contactar os mortos à volta de mesas de pé-de-galo, os vizinhos da associação em questão ficaram temerosos dos efeitos do misterioso "aparelho", que desconheciam...

A par com episódios verdadeiramente cómicos como este, tem-se verificado por vezes a sabotagem do funcionamento de associações espíritas, como sejam as queixas injustificada de "barulho", que já motivaram mudanças de instalações, para que ninguém tenha "razões de queixa".

Os espíritas levam estes acontecimentos com bonomia, cientes que estão de que se devem ao preconceito e ao temor do desconhecido. A visibilidade pública nos órgãos de comunicação tem feito com que actualmente este tipo de atritos já seja raro. Mas é sobretudo a conduta dos espíritas assumidos, no dia-a-dia, que tem vindo a dissipar incompreensões. Não pretendem os espíritas ser exemplos de virtude ou possuir mais luzes que os outros, mas é inegável que fazem sincero esforço de melhoria íntima, e assim, acabam por conquistar muitos que se crêem inimigos do Espiritismo.

Talvez não erremos muito se dissermos que, para a maioria dos portugueses, o Espiritismo é uma filosofia mal conhecida e diferente, mas é-lhe reconhecida seriedade. Mesmo que muitas pessoas, quando necessitam do aconselhamento de um centro espírita, não vão ao da sua cidade, com receio de represálias sociais ou profissionais. Só um movimento de rigoroso e exclusivo voluntariado consegue lograr este tipo de prestígio, pois onde não há perspectiva de lucros, dificilmente alguém consegue ser suficientemente malicioso para descortinar maus propósitos.

Para os espíritas, como dissemos, não há tarefas menores. É tão importante quem limpa e prepara a sala de conferências, como quem sobe ao estrado para as proferir (e muitas vezes é a mesma pessoa que desempenha ambas as tarefas). A divulgação do Espiritismo serve propósitos de serviço à Sociedade.

O II Congresso Espírita Mundial, organizado pela Federação Espírita Portuguesa, nos dias 30 de Setembro, 1,2 e 3 de Outubro de 1998, no Centro de Congressos da Feira Internacional de Lisboa - FIL, marcou uma fase de arranque de uma maior exposição da Doutrina em Portugal. Deveu-se muito ao entusiasmo de João Xavier de Almeida, então presidente da F.E.P., a organização desse Congresso em Portugal, que viria a decorrer em ambiente de muita alegria, e que trouxe nomes conhecidos do movimento espírita mundial.

No ano seguinte, nascia a Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, cujo historial constante no respectivo site, passamos a transcrever:

"Em Julho de 1999, cerca de vinte pessoas estudiosas da doutrina espírita juntaram-se num sábado de tarde na cidade de Caldas da Rainha. Nessa reunião, foi apresentado um projecto de trabalho a que se deu o nome Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal. Nessa altura, todos os presentes perceberam que se tratava de um projecto de trabalho baseado no seguinte conceito: juntar espíritas que profissionalmente se ligassem a áreas, no seu dia-a-dia, de interesse técnico para a divulgação do espiritismo. Por exemplo, havia professores, juristas, gente da imprensa, da internet, gente do marketing, das belas-artes, etc. Ora, a ideia foi juntar pessoas com formação técnica para produzir produtos e serviços de melhor qualidade, sem descurar os seus conhecimentos espíritas.

Assim, quando alguma associação ou a federação pedissem uma tarefa, ela poderia ser elaborada da melhor maneira.

Mas a ADEP não precisaria que lhe pedissem colaboração. Por si própria, já se propunha desde então desenvolver actividades, tais como elaboração de curso básico de espiritismo, criação de um boletim informativo, envio de comunicados noticiosos por e-mail, e as demais actividades que a ADEP desenvolve desde então.

Ficou programado nessa reunião realizar-se uma outra para conversão da ADEP em associação com personalidade jurídica em Novembro desse mesmo ano. Daí para cá, tem-se trabalhado muito."

O Período das "Catacumbas"

Divaldo Franco

O Espiritismo não veio ameaçar nenhuma religião. Não veio tentar arrebanhar adeptos de nenhuma religião. Não veio provocar quaisquer conflitos ou hostilizar fosse quem fosse. A proposta espírita é de aproximação entre os Homens e de glória a Deus.

No entanto, os que temem o livre-pensamento e sentem ameaçadas, sem razão, as suas "capelinhas", quando o movimento atingiu maior visibilidade, apressaram-se a silenciá-lo. Havia cidades portuguesas que possuíam jornais espíritas diários, versando Doutrina Espírita, sem intuitos políticos ou proselitistas. Floresciam as publicações, as conferências, a fraternidade extensiva a todos, fossem eles espíritas ou não. O Espiritismo em Portugal apresentava uma vitalidade rara no panorama mundial.

Com a proibição oficial das actividades espíritas não se silenciou totalmente o Espiritismo em Portugal. Três associações mantiveram actividades de assistência social. Algumas conferências públicas iam tendo lugar. Mas sob o movimento pairava o estigma de tudo o que é proibido. De 1953 a 1974, ser-se espírita passou a ser considerado "subversivo".

Portugal deixou por exemplo de poder receber livremente expositores espíritas estrangeiros. Divaldo Franco, o brilhante médium e conferencista brasileiro, foi dos que "sobrevoavam" corajosamente a proibição, e nunca deixou de visitar Portugal e as suas Colónias. Ficaram célebres entre os espíritas da altura as jornadas gloriosas em que Divaldo, em cima de um atrelado de tractor, à luz da Lua, fazia as suas palestras, que muitas vezes acabavam abruptamente com o aviso da aproximação da polícia política e a consequente debandada dos espíritas pela serras e pelos pinhais.

Foi uma época que teve semelhanças com a perseguição aos Judeus declarada pelos Reis Católicos, de Espanha, e pelo Rei D. Manuel I, em 1496. Se ainda hoje, em regiões portuguesas como a Beira Interior, os adeptos do Judaísmo ainda se reúnem com certa precaução, é fácil de imaginar o ferrete que ainda marca o Espiritismo em terras lusas...

Foi um tempo que ficou conhecido como das "catacumbas", porque o Espiritismo passou à clandestinidade. O tempo das "catacumbas" teve consequências para o movimento espírita nacional. O isolamento dos espíritas em pequenos grupos clandestinos, familiares, fez com que se perdesse muita da qualidade que só se consegue com o intercâmbio, o convívio, a aprendizagem constante em clima aberto.

Quando em 1974 se reconquistaram as liberdades democráticas, o movimento espírita encontrava-se paralisado pela longa inacção. Os antigos impulsionadores estavam avançados na idade. Os que mantiveram grupos familiares, habituados ao isolamento e sem capacidade de mobilização. Foi altamente meritória a actividade de todos os que se esforçaram por reactivar os grupos espíritas, por reconstruir a Federação, e por voltar a divulgar a Doutrina.

A reorganização foi lenta. Muitos núcleos espíritas tardaram a abrir portas ao público. E muitos dos que o fizeram continuaram a praticar um Espiritismo a que se habituaram durante os longos anos da proibição, pouco dado ao estudo e com laivos místicos pouco condizentes com a verdadeira essência da Doutrina. Alguns centros ditos espíritas mais se assemelhavam a centros mediúnicos, em que o fenómeno tinha toda a prioridade e o estudo era relegado para segundo plano. Não é raro ainda hoje encontrarem-se espíritas que nunca leram as obras básicas, por as suas leituras terem sido orientados essencialmente para descrições romanceadas do mundo espiritual.

Visita de Um Amigo


Francisco Thiesen

No ano de 1977, já a explosiva situação política do pós 25 de Brasil se encontrava estabilizada, visitava Portugal o Presidente da Federação Espírita Brasileira, Francisco Thiesen (na imagem).

14 de Maio

(...) "Portugal espírita tem sofrido muito, mas vai sofrer mais, não pararão aí as dores, as angústias, estamos bem informados disso. É preciso que os espíritas portugueses entendam que ninguém, e mormente no Espiritismo, ninguém pode prescindir da necessidade do testemunho, e os espíritas portugueses são daqueles que no passado muito receberam do Alto. Quando aqui viemos, fomos advertidos de que os espíritas portugueses haviam estudado muito. Dedicaram os seus estudos à pesquisa, procuraram ocupar o tempo que lhes faltava para a livre manifestação do pensamento, a fim de burilar a inteligência no convívio amoroso dos livros. Pois nem, meus amigos, é um património extraordinário, este adquirido por todos vós, mas um património que o Senhor reclama, porque a Ele realmente pertence, e Ele o reclama numa movimentação intensa, numa movimentação intensiva para beneficiar todos aqueles nossos irmãos que não tiveram o mesmo ensejo, a mesma oportunidade de enriquecimento do seu espírito, do seu coração." (...)

Francisco Thiesen percorria o País, acompanhado por Divaldo Franco e por Maria Raquel Duarte Santos (primeira Presidente da F.E.P. após o 25 de Abril). Deixava palavras de alento e apelo ao trabalho espírita, e também avisos quanto a possíveis desvios doutrinários. É o caso destas, proferidas em Outubro de 1977, na Associação Espírita de Lagos:

(...) "É preciso, no entanto, que no movimento espírita em que ora nos engajamos, não seja permitido que nele penetrem doutrinas exóticas ou filosofias que não são pertinentes ao nosso movimento. Devemos respeitar todas as filosofias e todas as religiões, mas nós espíritas, devemos fazer apenas Espiritismo. Não importa para nós espíritas, que outras doutrinas possam eventualmente ser consideradas mais importantes. Se estamos convencidos de que a Doutrina Espírita é para nós a melhor, não há razão para que façamos misturas, estabelecendo confusões e dividindo o nosso próprio movimento. Não é razoável, não é coerente. Não podemos servir a Deus e a Mamon." (...)

E continuamos a a citar, da obra "Movimento Espírita Português", de Manuela Vasconcelos:

(...) "É preciso, pois, que no Espiritismo não percamos de vista os objectivos e os meios válidos. O número de profitentes não nos preocupa, esse problema é de Deus, é de Jesus que é o Governador da Terra. São problemas da Alta Cúpula da Espiritualidade Superior. As nossas responsabilidades são num campo mais restrito e obedecendo aos propósitos do Criador" (...)

O alerta para os perigos do personalismo, também não faltou nesse discurso:

(...) "É preciso que dentro de tudo isto, cada espírita faça a sua parte. O importante não é que cada espírita seja um dirigente, o que importa é que cada um, no Espiritismo, contribua valiosamente para que o empreendimento atinja os seus fins" (...)

A visita do Presidente da F.E.B., em périplo pelo Portugal espírita, foi uma fonte de úteis observações e conselhos, da parte de quem, vindo de fora, e pelas suas reconhecidas qualidades, estava em óptima posição para o fazer.

Com efeito, não é da natureza do Espiritismo o fazer adeptos, mas sim o "colocar a candeia sobre o alqueire". Ao contrário das religiões salvacionistas, o Espiritismo não considera que Deus tenha religião, ou esteja particularmente interessado que a espécie humana terrena faça o seu percurso espiritual dentro desta ou daquela organização religiosa ou filosófica.

O Espiritismo considera que as crenças de cada um são património inviolável, e que não só é possível, como é exigível, que as diferentes crenças convivam em paz, fraternidade e igualdade de direitos e deveres.

O Espiritismo não se considera possuidor de nenhum tipo de mandato divino em condições de exclusividade, para representar Deus na Terra. A religião do Espiritismo é a religião natural, a ligação interior a Deus, pela Razão e pela Fé, ou seja, pela fé raciocinada. O Espiritismo não tem, por isso, chefes, nem sacerdotes, nem admite a profissionalização.

Para os espíritas, um cargo de dirigismo é uma missão como qualquer outra. Não há pessoas mais e menos "importantes" no Espiritismo. Há os que pelo seu esforço já galgaram mais caminho na evolução espiritual, e que por isso servem de exemplo, sem que se deixem afectar pela vaidade. Aliás, como na Terra se desconhecem os méritos espirituais de cada um, o culto da personalidade não cabe, de todo, neste movimento.

A verdadeira humildade não consiste também em modéstias descabidas. Cada espírita deve abraçar as tarefas que lhes caibam, e para as quais seja talhado e tenha gosto, com a mesma entrega, sejam elas de mais ou menos visibilidade. Só Deus sabe o valor dos nossos esforços, e as vãs glórias terrenas não entram, decerto, nas Suas contas...

Subtilezas

Charles Richet

No cenário social e político do Estado Novo, é muito bem possível que não tivesse havido mesmo lugar para a actividade espírita às claras, por muita diplomacia que se tivesse usado. A polícia política do regime temia todos os ajuntamentos em que se trocasse ideias. Ao contrário do caso brasileiro, em que a craveira intelectual e social dos dirigentes espíritas poupou o movimento à perseguição, a ditadura portuguesa temia o pensamento livre sob todas as formas, e por isso apressou-se a criar um estratagema para se ver livre do incómodo do Espiritismo, vivência cristã em espírito e em verdade, sempre pugnando pela igualdade de todos os seres humanos, em dignidade, direitos e deveres.

No Decreto citado no post anterior, dizia-se que "todo o consultório médico, seja qual for a sua designação ou modalidade, que funcione sem que seja dirigido por médico ou médicos sem condições de exercer a profissão", seria encerrado.

É claro que um laboratório de pesquisas metapsíquicas não é um consultório médico. No entanto, para salvaguardar possíveis impedimentos legais, o referido laboratório contava com dois médicos, dois pesquisadores em Metapsíquica, na sua direcção. Não foram estes considerados aptos, sem que o Governo tenha explicado porquê, recordamos. Sendo pedido que fossem nomeados pelo Governo médicos "mais capazes", a "afronta" foi punida com o encerramento da Federação e a perseguição aos espíritas, que durou até 1974.

Para além do património confiscado arbitrariamente, os danos morais ao movimento espírita foram enormes. O estigma de se ser metido no mesmo saco da charlatanaria persiste até hoje.

Já no primeiro Congresso Espírita Português, uma das principais preocupações dos espíritas portugueses era o esclarecimento do público sobre os oportunistas sem escrúpulos que então atingiam números estrondosos em Portugal, aproveitando-se do padecimento alheio para espoliarem os seus incautos clientes. E já então a esse tipo de tratantes servia à maravilha acrescentarem à lista dos seus supostos dons o de serem "espíritas", querendo com isto dizer que comunicavam com os Espíritos.

Escusado será dizer durante anos os médiuns comerciantes (habitualmente muito ignorantes, mas astutos e oportunistas) continuaram a usurpar um nome em voga, o de "espíritas", para embelezarem os seus currículos.

De tal forma que ainda hoje é frequente os próprios meios de comunicação (televisões, rádios, jornais), sempre sedentos de espectáculos aberrantes, apresentarem como "espíritas" as mais estouvadas criaturas...

Para que conste, aqui vai uma definição "wikipédica" da famosa Metapsíquica:

«Metapsíquica - definida pelo criador Charles Robert Richet professor da Sorbonne e cientista - "(...)ciência que tem por objecto a produção de fenómenosmecânicos ou psicológicos, devidos a forças que parece serem inteligentes ou a poderes desconhecidos, latentes na inteligência humana".[1]

Richet, estudando a mediunidade dividiu a Metapsíquica em dois grupos: "Metapsíquica Subjectiva" e "Metapsíquica Objetiva", classificando-os com base na sua divisão em Mediunidade de Efeitos Físicos e Mediunidade de Efeitos Psíquicos, compreendendo a primeira os telecinésicos; e a segunda, os criptestésicos.[2]

A Metapsíquica foi a precursora da Parapsicologia

A Metapsíquica, tal como a Parapsicologia, que lhe sucedeu, estudava os fenómenos paranormais, já abordados por Allan Kardec de forma sistemática em O Livro dos Médiuns, de 1861.

A abordagem espírita é sempre tríplice: filosofia, moral e científica. Já a Metapsíquica, como a Parapsicologia, estudam os fenómenos sem lhes extraírem outras ilações que não as científicas.

E é por isso que o Espiritismo é uma doutrina peculiar. Porque não separa Religião e Ciência, que no pensamento corrente se excluem mutuamente.

Uma das questões levantadas pelos detractores, na altura do "cerco" ao Espiritismo em Portugal, era a de que o Espiritismo, não sendo religião, não podia ter existência legal. Por outro lado, sendo religião, não podia ocupar-se de Ciência.

Mero jogo de palavras, mera retórica jesuítica. O Espiritismo, por se ocupar das coisas de Deus, e por preconizar um roteiro moral condizente, é, filosoficamente, uma religião. Não o é formalmente, na medida em que não tem nada do que é típico das religiões, como sejam o sacerdócio, os rituais, os sacramentos, a idolatria ou os dogmas inquestionáveis.

Como ciência, o Espiritismo não é uma ciência na acepção académica do termo. É o que se chama uma ciência de observação, ou seja, é comparável à actividade do astrónomo ou do ornitologista amadores, que observam corpos celestes ou aves. Tratando-se de amadores, as observações destes entusiastas não deixam de ser verdadeiras. O mesmo faz o Espiritismo, que, não tem lugar para o profissionalismo (não há espíritas profissionais e muito menos cientistas espíritas profissionais). Contudo, as observações e estudos efectuados pelo Espiritismo, não são seu domínio exclusivo. A pesquisa científica é livre, e o Espiritismo só pode congratular-se, quando cientistas, sejam eles espíritas ou não espíritas (como Charles Richet), corroboram as assertivas da nossa doutrina.

Ora, se não passa pela cabeça de ninguém proibir os amadores de espreitarem as aves pelos binóculos ou as estrelas pelos telescópios, por daí não advir mal para a Sociedade e por se tratar de Cultura, também não passa pela cabeça de ninguém proibir as pesquisas feitas no âmbito das actividades espíritas.

Com acrescida razão, não passa pela cabeça de ninguém honesto proibir o Espiritismo por, na sua opinião, ser uma religião "menor"...

Mas - subtileza das subtilezas - o Espiritismo, sendo a única religião que se curva ao veredicto da Ciência e que não a coloca em plano inferior nem como departamento menor da Verdade, o Espiritismo foi e é perseguido porque, na opinião de alguns, a fonte da Doutrina não é fiável...

É que se algumas hierarquias religiosas aceitarem que as vozes dos Céu podem falar aos homens, a sua condição de intermediários que se crêem na posse de procuração do Altíssimo, fica de certa forma diminuída. É, portanto, uma questão de desemprego...

O Inverno Português

É ainda hoje um tema muito discutido nos meios espíritas, se a proibição imposta pelo Estado Novo poderia ter sido evitada. De uma coisa estamos certos: os nossos companheiros que na altura ocupavam cargos no dirigismo espírita, fizeram o seu melhor.

Quem viveu o anterior regime sabe bem do clima de restrição de todas as liberdades, que imperava no nosso País. A assinatura da Concordata, entre Portugal e o Vaticano, não resultou num poder total da Igreja Católica sobre o País, como sucedeu com o ultramontanismo espanhol. No entanto, e bem à portuguesa, logravam-se resultados idênticos com os nossos "brandos costumes".

O Decreto nº 32 171, publicado no Diário do Governo a 29 de Julho de 1942 é bem o exemplo de um modo de fazer as coisas, mais diplomático e "limpo". Reza assim o Artigo 15ª:

«Todos os indivíduos que com o nome de magnetizadores, ocultistas, videntes, quiromantes, naturistas, fisioterapeutas ou semelhantes empreguem práticas, medicações ou quaisquer processos com os quais se procurem sugestionar doentes, e, de um modo geral, todos os charlatãis que usem de processos análogos com os quais procurem sugestionar doentes, serão condenados na pena a que se refere o artº 20º.»

Artº 20º, que determina:

«Pela forma indicada no artº anterior será encerrado o consultório médico, seja qual for a sua designação ou modalidade, que funcione sem que seja dirigido por médico ou médicos sem condições de exercer a profissão, de harmonia com o presente diploma.»

No mesmo saco da charlatanaria, que o Decreto não define, eram metidos naturistas e fisioterapeutas, especialidades da área da Saúde (sem que fossem enunciados que habilitação deveriam ter para se moverem dentro da legalidade) a par com quiromantes (praticantes do que se pode chamar uma arte divinatória, creia-se ou não nela), a par com ocultistas (um conceito elástico, mas que no seu significado original cabe no campo da filosofia), mais os magnetizadores, cuja especialidade acabaria por entrar na ciência oficial com o nome de hipnose...

Este tipo de generalizações busca confundir a opinião pública, manchar actividades que podem ser honestas ao colocar-lhes indistintamente o rótulo de charlatanaria, e dar às autoridades um poder arbitrário, ao ficar a cargo do polícia de plantão "aplicar" a lei segundo as suas mais ou menos acanhadas noções...

No Estado Novo eram mal vistos os praticantes de yoga, os naturistas, os espíritas, os protestantes, os que se interessavam por política e por filosofia, e, no geral, todos os que gostavam de saber mais e pensar pelas suas cabeças. A vigilância social, também chamada má-língua, era implacável para quem não se movesse nos estereótipos do homem marialva, dado ao futebol de bancada (eventualmente aos fados e às toiradas), e à mulher orgulhosamente ignorante, a quem ficava mal (caso não fosse da "alta sociedade"), ler mais que as fotonovelas "Simplesmente Maria"...

Charles Richet, Prémio Nobel da Fisiologia/Medicina em 1913, foi o criador da Metapsíquica. Em 1953, as actividades espíritas em Portugal foram proibidas, a pretexto da criação, pela Federação Espírita Portuguesa, do "Laboratório de Pesquisas Metapsíquicas Professor Charles Richet". Em 1969, conforme recorte de Imprensa que reproduzimos, discutia-se em Portugal se as mulheres tinham ou não o direito de usar calças. E se o Inverno Português é rigoroso...

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Ditaduras



Vale a pena analisar-se mais um pouco o artigo de C. Maia, dado à estampa no jornal católico "Novidades", em Abril de 1953, ano de todos os ataques ao Espiritismo em Portugal. Não que tenha sido único ou que tenha sido especialmente acutilante. É apenas porque foge ao tom jocoso e grosseiro habitual, e ensaia uma postura de seriedade, escudado na opinião de Egas Moniz.
A obra "Ao lado da Medicina", de Egas Moniz, a páginas 21-23, trata de superstições e cataloga como superstição "o espiritismo", ou aquilo a que, por desconhecimento ou espírito de seita, decidiu que é o Espiritismo.

Egas Moniz avalia "a nova religião, se assim lhe podemos chamar" como contando no mundo "para cima de doze milhões de prosélitos". E acrescenta que "A Imprensa ocultista é numerosa; a propaganda é imensa. Em 1904, já existiam cento e trinta revistas e jornais diversos e o seu número não deve ter diminuído."

A preocupação de Moniz parece ser com os números que a seu ver ameaçavam a hegemonia das ideias que lhe eram caras... Factos, os tais factos que comprovariam que "o Espiritismo não gera uma psicose especial, mas concorre para a expansão da loucura", esses, não há.

Há a citação do psiquiatra Lévy-Valinsi, que chamou ao Espiritismo a "ante-câmara da loucura". E do austríaco Donath, que o classificou de "superstição vergonhosa para o nosso tempo, pois embrutece o povo e é perigosa para a saúde".

Egas Moniz, na mesma linha da acusação cega e infundada, não se coíbe ainda, de afirmar que "São os débeis mentais, os degenerados, os psicacténicos, os indivíduos de limitada instrução e grande sugestionabilidade que formam a corte dos adeptos mais fervorosos. Sem essa acção prejudicial, todos esses indivíduos poderiam estacionar na vida social, com relativa normalidade. Diz George Dumas que entre os doentes mentais, por ele observados, de tipo paranóide e de delírio de influência, sessenta por cento tinham praticado o espiritismo. Sinistra superstição em que a fraude e - o que é pior - actos delituosos se praticam, segundo informa Goriou, que frequentou esses meios.

A estratégia, já então nada inovadora, foi a de catalogar como "espiritismo" tudo o que tivesse, de perto ou de longe, a ver com mediunismo. Ou seja, onde se falasse de comunicações com o Além, reais ou meras fraudes, o carimbo de "espiritismo" passava a ser aplicado pelas autoridades e pela Imprensa afecta ao regime e ao seu pensamento único, totalitário.
Assim, não admira que a exploração comercial da mediunidade, quantas vezes a par com a superstição mais ingénua e a trafulhice mais desbragada, passasse a ser contada no rol dos males do "espiritismo".

Os obsidiados, que, hoje como ontem, enchem os hospícios, caso tivessem apresentado indícios de fenómenos mediúnicos, eram, como hoje são, igualmente postos no rol dos "espíritas".

Ontem como hoje, não falta quem, ao ver um médium espontâneo a cair na rua, a contorcer-se e a falar com outra voz que não a sua, logo sentencie que se trata de "espiritismo"... nessa ordem de ideias, assimilando tudo o que é charlatanaria mística e mediunidade descontrolada à designação genérica de "espiritismo", tudo é espiritismo, nada é espiritismo, e toda essa argumentação de nada vale, por ser absurda, por ser indigna de pessoas que se tenham na conta de intelectualmente honestas, e que, por professarem uma determinada religião, deveriam ser as primeiras a respeitar quem, como eles, professa a crença que mais lhe fala ao coração.

Não era menos médica que Egas Moniz, Amélia Cardia, uma das primeiras mulheres médicas portuguesas. E era espírita. Não eram menos médicos os que se propuseram iniciar o laboratório de pesquisas metapsíquicas, que serviram de pretexto à ofensiva final contra a Federação Espírita Portuguesa.

Não eram menos sérios, nem menos cultos, nem menos dotados de senso, todos os espíritas que deram corpo à F.E.P., que geriam as suas publicações, que promoviam o seu estudo e a sua divulgação. Mas os detractores do que julgam ser o Espiritismo sempre descobrem que no cérebro dos mais eminentes cidadãos, sob todos os pontos de vista impecáveis, jaz, meio escondido, um ponto fraco e impressionável que os torna ingénuos como crianças perante o "embuste espírita".

Não era menos médico nem menos Nobel da Medicina, Charles Richet, que, não sendo espírita, estudou a mediunidade e concluiu pela sua veracidade inquestionável, no seu "Tratado de Metapsíquica".

Não era menos médico o médico e espírita francês Gustave Gelley, que, na mesma época, lograva conclusões opostas às de Moniz. Porque era espírita? Não. Porque estudava sem preconceito. Sobretudo porque estudava.

Não só não forma loucos, como forma homens melhores, que se esforçam por ultrapassar imperfeições.

A prática mediúnica no Espiritismo não só não forma loucos como forma pessoas equilibradas. Segundo estudos médicos sistemáticos, divulgados no Jornal de Espiritismo, edição da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, os médiuns espíritas gozam, em média, de mais saúde metal que a média da população.

Os protagonuistas da narrativa Bíblica que expulsavam os maus Espíritos e dialogavam com os bons, à luz da ciência destas luminárias prevenidas da Medicina, como Egas Moniz, seriam decerto considerados loucos ou endemoninhados.

A campanha do "Novidades", que fez publicar artigos jocosos e boçais, associando o nome do Espiritismo aos desmandos que davam na real gana dos articulistas, revestiu-se de aspectos persecutórios de quem sabia a luta desigual. Do lado espírita, Manuel Caetano de Sousa, na "Revista de Metapsicologia", respondia com educação e com seriedade. O "Novidades" batia nas teclas da mistificação, do delírio, da crendice, da bruxaria, num estilo de fazer inveja aos tão injustiçados carroceiros, que os havia e há bem mais educados. E sobretudo dotados de senso-comum, pois é um vivo contra senso um jornal de orientação religiosa negar à partida, com os argumentos monolíticos dos materialistas, um dos mais belos atributos com que Deus dotou o ser humano: a possibilidade de sentir o pulsar do mundo espiritual, o reino dos Céus de que Jesus falava, e de testemunhar as comunicações daqueles a que os antigos chamavam os Anjos, e que são os Bons Espíritos, as almas dos homens que viveram na Terra.

A Terra, essa, como dizia Galileu, continua a girar, indiferente aos decretos papais que a mandam estar quietinha...